Um contrato, um amor
Pamela Dalton

 
Ttulo: Um contrato, um amor
Autor: Pamela Dalton 
Ttulo original: And baby makes six
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1997
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Cynthia M.
Estado da Obra: Corrigida

E com o bebe... so seis
Casar-se com o lindo e maravilhoso Devlin Hamilton era um sonho que se tornara realidade para Abby O'Reilly... mesmo que apenas por convenincia. Incumbira-se de se tornar me dos filhos de ambos e, em troca, ganhara um marido alto e forte, a quem poderia chamar de "seu". Deviam compartilhar a mesma cama, para no confundir as crianas, e ambos assinariam um acordo pr-nupcial, para que eles mesmos no se confundissem depois. At que uma inesperada onda de sensualidade os envolveu na noite de npcias, levando-os a ter uma inesperada surpresa: havia mais um Hamilton a caminho! Dali em diante, teriam menos de nove meses para substituir aquele tolo contrato pelos termos reais dos votos de casamento... que envolviam juras de amor eterno, muita paixo e outras surpreendentes condies... 


Aos meus filhos,
Sei que os ltimos cinco anos foram difceis, desde que a me de vocs fez as malas e partiu em busca do sucesso na carreira. Mas sempre tivemos comida na mesa, um bom teto sobre nossas cabeas, e tambm uns aos outros. Por muito tempo, pensei que isso era tudo de que precisvamos, mas descobri que estava enganado. Como tenho gastado muito tempo enfrentando os problemas de administrar minha prpria empresa, percebi que vocs precisam de algo mais, que no posso oferecer no momento. Estou me referindo a uma influncia feminina. No basta ter uma mulher em nossa casa. No quero envolv-los com uma pessoa que faa as malas e depois parta, ao primeiro sinal de dificuldade. Sei que necessitam de algum que os esteja esperando em casa quando chegarem da escola, e que fique sempre por perto, no importa o que acontea. Confesso que no pretendia me casar outra vez, at que conheci Abby 0'Reilly. H algo de especial nela, que me leva a esquecer todas as mgoas e os erros do passado. Ela tem um jeito de ser que me faz querer... Bem, isso no importa agora. A boa notcia  que Abby tem uma linda filha de quatro anos. Quando nos casarmos, vocs vo ganhar uma nova irmzinha, alm de uma me. Seremos uma famlia de verdade. Ns cinco. Um nmero perfeito. Sei que posso confiar em vocs dois, para que a faam sentir-se bem-vinda.
E dessa vez vou fazer tudo direito, e manter o cerco bem fechado, para que nunca mais fiquem sem me. Certifiquem-se de que seus quartos estejam limpos, coloquem a tampa no tubo de creme dental, e ensinem algumas boas maneiras a Hulk, antes que eu volte para casa. No quero que Abby e Paige fiquem aterrorizadas no instante em que entrarem pela porta da sala.
Com amor, Papai.
 

PROLOGO
No momento em que sentiu Devlin Hamilton colocar a aliana de ouro em seu dedo, Abigail 0'Reilly soube que algo havia mudado no relacionamento entre ambos. Uma ardorosa onda de desejo pareceu banhar todo seu corpo. Surpresa, Abby levantou o rosto e encarou seu "quase" marido, descobrindo-se observada com uma intensidade quase palpvel por aqueles lindos olhos verdes.
Estaria ele sentindo aquele mesmo tremor? Teria questionado se o passo que estavam dando era a melhor opo?
Pela expresso firme e inabalvel no rosto dele, era impossvel dizer.
 E pelos poderes a mim investidos, eu os declaro marido e mulher  disse o juiz de paz, fechando o livro que tinha nas mos e sorrindo para ambos.  Pode beijar a noiva, Sr. Hamilton.
Abby ficou tensa ao ver o rosto de Devlin se aproximar. Conteve o flego, sentindo como se o beijo fosse devastar seu autocontrole. Alguns poucos aplausos ecoaram atrs deles.
Tentando reconquistar um pouco de compostura, afastou-se de seu novo marido, e virou-se para encarar a irm dele, Gayle. Ela e Ed Suterland eram seus padrinhos e os nicos convidados.
Gayle Hamilton Suterland, uma mulher dinmica, alta e atraente, cujos cabelos eram to negros quanto os do irmo, envolveu Abby em um abrao entusiasmado.
	Sentirei saudade de ser sua vizinha, mas nada me deixa mais feliz do que t-la na famlia, como minha nova cunhada  disse Gayle, virando-se ento para o irmo.  Escolheu bem desta vez, querido.
Olhando por sobre a cabea da irm, a expresso de Devlin convidou Abby a compartilhar daquele momento de alegria. Gayle nunca fizera segredo de que apoiava o casamento deles, mesmo depois de ouvi-los explicar que estavam fazendo aquilo por meras razes prticas.
Foi ento que o juiz de paz interrompeu o momento para a ltima das formalidades da noite.
	Preciso da assinatura de todos na certido  explicou ele.
Devlin no hesitou em assinar. Em seguida, passou a caneta para a nova esposa. Tentando ocultar o tremor em suas mos, Abby assinou o mais depressa possvel. Queria se afastar da aura quase eletrificada que parecia emanar de Devlin.
No estava entendendo o que havia de errado com ela. Por natureza, sempre fora uma pessoa prtica. A experincia lhe dera a sabedoria necessria para manter-se sempre presa  realidade. Ento por que estaria to nervosa? O que a levava a suar, apesar de estar trajando apenas um leve vestido de seda azul, e da temperatura da casa parecer agradvel? Alm do mais, j era final de dezembro e estava nevando.
Depois de esperar pela assinatura dos padrinhos, o juiz se despediu de todos e partiu, com votos de felicidade aos recm-casados.
No momento seguinte, Ed pegou os casacos dele e de Gayle, que se encontravam em um suporte, ao lado da porta.
	Precisamos ir tambm, amigos  disse ele.
	No podem ficar mais um pouco?  indagou Abby, tentando esconder o sbito pnico que a acometeu, ao perceber que ficaria sozinha com Devlin.
	Lamento muito  disse Gayle, abotoando o casaco e ajeitando o cachecol ao redor do pescoo.  Mas a bab que trabalha para ns tem um encontro esta noite, e prometemos que iramos estar de volta o mais cedo possvel. Mas no se preocupe. Trarei Paige para casa amanh cedo, em torno das nove da manh.
	Se ela der trabalho, pode traz-la para casa esta noite mesmo  sugeriu Abby, imaginando se algum estaria notando o desespero em seu tom de voz.
Gayle soltou um riso espontneo.
	Paige nunca nos deu trabalho. Alm disso, ela e Sarah vm planejando o que iriam fazer hoje desde a semana passada. No quer privar nossas filhas de se divertirem juntas, no ?
A garotinha adorava os Suterland. Abby nunca se incomodava quando a menina pedia para passar a noite com a amiguinha, filha de seus mais queridos vizinhos. Por outro lado, achava que o falatrio incessante de uma criana de quatro anos seria at uma distrao til naquela noite. Pelo menos a faria esquecer aquela sensao de desejo que a estava fazendo sentir um insistente calor, em pleno inverno.
Em vez de ir at Ohio, os filhos de Devlin haviam ficado com os avs, em Wiscosin, onde o mais velho estava participando de um campeonato de basquete juvenil. Como os garotos no estariam com ele, Abby decidira deixar Paige passar a noite na casa de Gayle, j que crianas costumavam no gostar de casamentos.
Antes de fechar a porta atrs de si, Ed olhou para os recm-casados. Com uma piscadela, disse:
	Oh, deixamos uma garrafa de champanhe na geladeira. Divirtam-se.
O vento gelado que invadiu a sala naquele momento no foi suficiente para abaixar a temperatura ambiente.
Evitando olhar para Devlin, Abby procurou algo para arrumar ou para recolher. Mas no havia nada por perto. A despeito do fato de sua vida haver dado uma volta de cento e oitenta graus, nada parecia haver sido fisicamente afetado em sua casa. Nem mesmo a simples e pequena sala de estar.
	J est arrependida?
O som daquela voz grave e intensa, mesmo em um tom gentil, fez com que sua pulsao batesse um novo recorde pessoal.
	No  improvisou ela, envergonhada da prpria covardia.
O olhar provocante de Devlin demonstrava um sorriso oculto, mas nenhum sinal de que ele pretendia pression-la. Era tarde demais para arrependimentos, e ambos sabiam disso.
Aquele casamento de convenincia, sem envolvimento emocional, era o que ambos queriam para suas vidas.
Aps observ-lo pegar um envelope na mesa de centro, ouviu-o dizer:
	Aqui est sua cpia do nosso contrato prvio de casamento, j registrado, conforme o combinado. Quer rev-lo mais uma vez?
Abby balanou a cabea negativamente.
Havia decorado cada palavra daquele texto, depois de l-lo dezenas de vezes, antes de assin-lo. O documento que formalizaram antes da cerimnia detalhava com mincias o que cada um deveria esperar e oferecer naquela unio. Em resumo, no se tratava de um casamento de verdade.
Ambos haviam aprendido as devidas lies, em seus respectivos casamentos anteriores. A primeira esposa de Devlin pedira divrcio e o deixara encarregado de criar sozinho os dois filhos. Quando o marido de Abby morrera, um ano antes, deixara-a com uma montanha de dvidas de jogo e uma filha pequena para cuidar.
Em essncia, ambos queriam a mesma coisa: um casamento de convenincia, que pudesse oferecer estabilidade para seus filhos. Ela faria  papel de me em tempo integral, e cuidaria das crianas e da casa. Ele seria o provedor de recursos financeiros.
Estabeleceram assim as bases do contrato. No queriam ter surpresas. Nada de falsas declaraes de amor, nem de iluses de paixo eterna. Nenhum deles geraria expectativa com relao ao que o outro deveria ou no fazer. Era o ideal para ambos. Pelo menos fora isso que lhe parecera, quando Devlin apresentara a proposta.
Mas naquele instante, usando a aliana dourada no dedo mdio da mo esquerda, Abby j no estava to segura sobre a deciso. O que haveria mudado? Por que havia tanta tenso pairando no ar?
O fato de nunca ter visto Devlin com aquelas roupas formais, que lhe ressaltavam o porte atltico e a masculinidade, no era motivo para questionar a deciso que tomara antes. Nem para achar, de repente, que seria difcil conviver com a sensualidade que ele exalava.
"Preciso manter os ps no cho", pensou ela, "para que meus pensamentos no me levem a ficar com a cabea nas nuvens." No poderia permitir que a imaginao a afastasse da realidade.
Aquele era o mesmo Devlin que consertara o telhado de sua casa, poucos meses antes. Ele era honesto, trabalhador e, acima de tudo, um pai dedicado. Sempre fora franco em mostrar o que desejava. Abby precisava justamente daquilo, e era tudo que poderia esperar dele.
Haviam concordado em no colocar o casamento sob risco, no tendo relaes sexuais, j que isso poderia complicar tudo. Nenhum deles queria complicaes ou imprevistos. Sua filha precisava de uma casa onde pudesse ter conforto e comida  mesa. Os filhos de Devlin, Jason, de treze anos, e Riley, de seis, precisavam de uma me, nada mais.
Abby no hesitara em aceitar tal responsabilidade. Adorava crianas, e ficaria feliz em poder criar os garotos. Por isso, unir as famlias parecera ser a atitude mais racional a se tomar. Ento por que estava sentindo aquela sbita urgncia de agir de uma maneira quase irracional?
De onde surgira aquela vontade de desabotoar a camisa de Devlin, para lhe acariciar a pele bronzeada e descobrir como era aquele peito forte despido? Aquilo no era normal. Aprendera a no confiar nas emoes, e sabia que a paixo poderia colocar tudo em risco. Ento por que seus hormnios se recusavam a se comportar?
O desejo que imaginara ver nos olhos dele deveria ser fruto de sua imaginao. O bom senso, associado  sua experincia de vida, ensinara-lhe que o amor s atingia aqueles que se permitiam ser enganados pela iluso.
Devlin a assustou ao ajeitar os papis, batendo-os de lado na mesa, antes de coloc-los outra vez dentro do envelope.
	J que no quer ler, acho que podemos beber um pouco de champanhe.
	Isso seria timo!  respondeu Abby, grata por haver um motivo para amenizar a tenso que se formara entre eles.  Mas j vou lhe avisando que minha seleo de copos  bastante limitada. S poder optar entre o do Fred e o do Barney.
O sorriso dele foi instantneo.
	No h um copo da Vilma?" perguntou Devlin.
	Sim, mas est com a borda lascada. No gostaria que se cortasse.
	Acho que vou me arriscar.
Olhando-o de soslaio, Abby tentou identificar se aquilo fora uma mera brincadeira ou se houvera algum sentido duplo na frase.
	Onde est o saca-rolha?  perguntou ele, fazendo-a sentir-se tola por estar se deixando levar pela imaginao.
	Nunca consegui pensar com clareza, quando uso cinta-liga  murmurou Abby, pensando em voz alta.
Ao ouvi-lo rir, percebeu que fora ouvida, e sentiu o rosto esquentar.
	Vou me lembrar disso  disse Devlin.
	O saca-rolha est na gaveta de cima,  sua direita.
Tentando ocultar o prprio embarao, ela abriu o armrio e ficou na ponta dos ps para tentar alcanar os copos. Ento um deles escorregou.
Devlin se adiantou e o pegou em plena queda, antes que casse no balco. O movimento rpido fez com se seus corpos se tocassem.
	Est tudo bem?  indagou ele.
Ao se virar para agradecer, Abby se descobriu pressionada contra aquele fsico msculo, e sentiu a respirao de Devlin como uma brisa morna em seu rosto.
	Obrigada. Quase perdemos Vilma de uma vez por todas. Embora eu no deixe Paige usar este copo, ele ainda  o predileto dela.
O olhar de Devlin se fixou em seus lbios.
	No gostaria que isso acontecesse.
	No?  indagou Abby, sem conseguir se lembrar sobre o que estavam falando.
Pensou em se afastar, mas suas pernas no cooperaram. Uma espcie de onda de sensualidade a dominou de repente, impedindo-a at mesmo de respirar direito. Apenas o observou colocar o copo no balco, sabendo que no havia para onde se mover.
Cada clula de seu corpo parecia atrada por aquela presena mscula e inebriante. Ao levantar a cabea, observou um ardente brilho de desejo nos olhos verdes, revelando que ela no era a nica a estar sentindo aqueles desejos.
Quando seus lbios foram tomados pelos dele, em um beijo envolvente e intenso, Abby perdeu o senso de reao. Se, em algum momento, pensou em protestar ou em fugir, a intensidade do momento logo afastou tais pensamentos. Jamais imaginara que um beijo pudesse ser to embriagante. Se houvesse bebido champanhe, teria motivo para duvidar da prpria lucidez. Mas nem sequer provara a bebida.
Na verdade, esqueceu-se de tudo o que existia no universo naquele momento, exceto de Devlin. Ele a fez senti-lo mais presente, beijando-a com ardor e desejo, at que suas lnguas se encontrassem, em uma dana sensual de troca de carcias.
De algum modo, chegaram ao quarto de Abby, e no demoraram para se despirem. Pouco depois, ela foi levada at a cama.
	A luz  murmurou Abby.
	Est perfeita...
Ento o tempo perdeu o significado. Nada mais parecia existir naquele momento. O modo paciente como Devlin fazia amor a fez sentir-se to desejada e respeitada que lgrimas lhe escaparam dos olhos. Mesmo assim, amaram-se de uma maneira alucinante, realizando alguns de seus sonhos mais ousados.
Envolvida por toda aquela paixo, Abby fez um pedido silencioso para que aquilo nunca terminasse. Devlin a fez sentir-se maravilhosa, levando-a a acreditar mais uma vez que havia potes de ouro no final do arco-ris, e que finais felizes existiam na vida real.
Inconscientemente, ele a fez esquecer o preo que se paga por sonhar demais.
Horas depois, a voz de Gayle ao telefone fez Abby voltar  realidade.
	Querida, no queria acord-la to cedo esta manh, mas acho que Paige est com catapora. Est com manchinhas vermelhas da cabea aos ps. Pnico e culpa a fizeram acordar por completo.
	Estarei a em um minuto, Gayle.
Quando ela desligou o aparelho, Devlin acendeu o abajur, iluminando o ambiente.
	Qual o problema?
	Paige est doente.
Diante do brilho no olhar dele, sua nudez a incomodou. Comeou ento a procurar suas roupas. Cus, o que fizera naquela noite?
A imagem de sua filha, sempre sorridente, passou-lhe pela mente. Como pudera se esquecer de Paige e de que havia se casado para garantir o futuro da menina? Como tivera coragem de arriscar tudo?
Desesperada, pegou o lenol e se cobriu, evitando o olhar de Devlin.
	Quer que eu a acompanhe?  perguntou ele.
	No precisa.
	Abby...
Ela o interrompeu antes que tivesse de ouvir aquilo que j havia percebido.
	Sabemos que violamos o contrato. Cometemos um erro. Vamos apenas esquecer isso tudo e fingir que esta noite nunca aconteceu, est bem? Comearemos tudo do zero.
Um momento de silncio se seguiu s palavras apressadas que ela proferira. Sem se incomodar com a prpria nudez, Devlin se levantou da cama.
	Vou para o outro quarto, para que possa trazer Paige para c.
	Est bem. E quanto ao nosso contrato?
	Oficialmente, comea a valer a partir de agora. Isso no se repetir.
Dizendo aquilo, ele se virou e foi para o banheiro.
Ainda envolta pelo lenol, Abby pegou as roupas e sentou-se na cama. O aperto em sua garganta logo se converteu em lgrimas desesperadas e silenciosas.
Mais do que nunca, sentiu-se aliviada por haver assinado aquele contrato. Precisava da segurana de saber que nada mudaria entre eles.
Daquele ponto em diante, iria se prender aos termos do acordo, e esquecer que aquele lapso ocorrera. No deveria permitir que nada colocasse o futuro de sua filha em risco. Nem mesmo seus desejos pessoais. No poderia deixar que Devlin Hamilton derrubasse suas defesas outra vez.
Nunca mais.
CAPITULO I
O estmago de Abby comeou a repetir as habituais contraes desagradveis, no momento em que ela ficou de p na calada, ao lado do carro, olhando para a construo  sua frente.
A grande casa, com fachada em madeira trabalhada, tinha uma enorme varanda, onde duas cadeiras de balano ladeavam o caminho para a porta de entrada. O lugar era maior e ainda mais bonito do que Devlin lhe descrevera.
Um antigo sonho despertou em sua memria. Sempre quisera morar em um lugar como aquele. Seria possvel tratar-se mesmo de seu novo lar? Iria Devlin querer compartilhar tudo aquilo, depois que soubesse...?
 Mame, ns no vamos entrar?  perguntou Paige, carregando sua gata no colo.  Quero que Princesa conhea meus novos irmos. Ser que Jason e Riley gostam de gatos?
O sorriso de Abby foi natural, pois era difcil olhar para os olhos azuis de sua filha, com cabelos dourados, sem se lembrar de um anjinho. Abraando-a, tentou transmitir-lhe uma segurana, que no possua, quanto ao que esperar da famlia de seu novo marido.
Como os garotos reagiriam  presena de uma madrasta? E  de uma irm? Ela e Devlin deveriam ter tido tempo de coloc-los em contato antes do casamento. Teria sido mais inteligente.
	Vamos descobrir daqui a pouco, est bem? Ao acabar de falar, Abby sentiu o estmago dar outra reviravolta.
	Mame?  gritou Paige, puxando-a pela cala para chamar-lhe a ateno.  Princesa precisa ir na caixinha de areia.
Abby olhou-a novamente. A experincia lhe ensinara o significado daquele aviso. Era a prpria Paige quem queria ir ao banheiro. Respirando profundamente, antes de ir ao encontro do desconhecido, tentou parecer segura diante da filha.
	Vamos, querida. Precisamos saber se h algum em casa.
Depois de atravessarem a varanda, Abby levantou a mo para bater  porta, mas esta se abriu antes que ela pudesse toc-la. Um par de mos firmes a segurou pelos ombros e a puxou depressa para dentro, junto com a menina.
	Depressa! Entre logo, para fecharmos a porta! Agora Riley. Feche!
Abby mal conseguiu avistar o verde dos olhos de Devlin, que demonstrava uma expresso transtornada. De sbito, viu um pequeno garoto passar correndo entre eles e fechar a grande porta de madeira com fora, causando um estrondo.
Paige se assustou e apertou a gata no colo, provocando um miado de protesto no pequeno animal. Ao mesmo tempo, a garotinha tentou se esconder atrs da perna de Abby, que parecia quase to apavorada quanto a filha.
	Pronto, pai  disse o menino, cujos cabelos avermelhados pareciam precisar ser penteados.  Oh, no... Ela tem um gato.
Mal Riley disse aquelas palavras e uma montanha de plos avanou sobre ela, no meio da sala. Por instinto, Abby se colocou  frente da filha, impedindo que o grande animal a alcanasse.
No mesmo instante, Princesa fez outro rudo de protesto. Libertando-se, a gata comeou a correr pela sala. O gigantesco cachorro partiu em perseguio, derrubando um abajur que ficava sobre uma mesa de canto. A gata saltou e se pendurou no alto de uma cortina.
	Hulk!  gritou Devlin, com autoridade.
O co parou no mesmo instante e olhou para trs, encarando o dono, como que pedindo "por favor".
	Parado  prosseguiu Devlin, sem desviar os olhos dos do animal.  Jason, pegue-o e coloque-o na cozinha.
O rapazinho de treze anos era a imagem adolescente do prprio pai. Os cabelos muito negros e os olhos verdes denunciavam a forte herana gentica. O garoto relutou em deixar seu posto de observao, ao p da escada. Mesmo fazendo uma careta de desgosto, aproximou-se do co e o segurou pela coleira.
	Venha, Hulk! Comigo, rapaz!
O animal pareceu no gostar da idia de ser afastado da caada, mas terminou por obedecer. Ao ser fechado no outro cmodo, comeou a ganir como se estivesse chorando.
Abby encarou Devlin, pedindo desculpas.
	Eu deveria t-lo avisado. Gayle e Ed deram esta gata para Paige no ltimo final de semana, como presente de despedida. Desde ento, as duas no se separaram. Espero que isso no cause maiores problemas.
Jason olhou para o cho, enquanto falava:
	No haver problema, se no se importar de ver a gata comendo cobras no lanche da tarde.
	Jason, pare com isso  ordenou Devlin, passando a mo pelos cabelos, ao fitar os olhos da esposa.  Sinto muito, Abby. No era bem esta a recepo que eu havia planejado para a chegada de vocs.
	Ele disse "cobras"?  Ela franziu o cenho. Jason lanou um olhar maldoso em direo ao irmo caula.
	As cobras de Riley esto soltas.
Os lbios de Paige se tornaram trmulos, quando ela se agarrou  perna da me, em busca de proteo.
	Mame, eu e Princesa no gostamos de cobras. Os lamentos do cachorro, do outro lado da porta, tornaram-se mais intensos, passando de ganidos a uivos.
	Hulk, calado!  ordenou Devlin, antes de voltar a encarar Abby, falando ento em um tom mais baixo:  Como foi a viagem?
	tima. As estradas entre Ohio e Wiscosin so boas  respondeu ela. Ao sentir Paige apertar sua perna com mais fora, olhou-o com ar de desespero.  No imaginei que Riley criasse cobras.
	Nem ns sabamos que ele as tinha  explicou Devlin, lanando um olhar de repreenso para seu caula.
Riley enrubesceu, mas se tentou se justificar.
	Troquei alguns dos peixes de meu aqurio pelos ovos de cobra de Ben Fix.
	Ento so apenas ovos?  indagou Abby, um pouco mais aliviada.
	Eram  explicou Jason, que parecia ser o nico a estar se divertindo com tudo aquilo.  J no so mais. Riley foi verific-los essa manh, e descobriu os ovos quebrados e vazios. At agora, encontramos quatro cobras. Duas na cozinha, uma no banheiro e uma no guarda-roupa do papai.
	E quantas deveriam ser?  indagou Abby, vendo a gata escalar a cortina.
No conseguiu se mover para tir-la de l. Queria faz-lo, antes que Princesa estragasse mais o tecido, mas Paige continuava agarrada  sua perna, em pnico.
Devlin pegou a gata, que a essa altura j estava quase chegando ao teto, e entregou-a a Paige, antes de responder:
	Havia sete cobras ao todo.
Riley abaixou a cabea, com uma comovente expresso de culpa.
	Ainda faltam trs  disse o menino. Paige comeou a soluar, ameaando chorar.
	Princesa quer ir para casa, mame.
	Pensei que Paige fosse gostar de ter um bichinho  explicou Riley.  No sabia que ela j tinha uma gata. As cobras no iro machuc-la. Nem so
venenosas!
Sentindo uma simpatia imediata pelo novo enteado, Abby tentou imaginar uma maneira de aliviar a tenso que se criara no ambiente. Em nenhum momento achara que seria fcil unir as duas famlias. Mas e quanto s cobras?
Aquilo mais parecia um mau pressgio. Principalmente por ela saber que aquela no era a nica surpresa que o dia reservara para todos eles.
Infelizmente, dar meia-volta e retornar para casa no era uma opo possvel. No havia mais para onde elas voltarem. E mesmo que tivesse de partir, no o faria sem antes falar com Devlin e explicar o que havia acontecido.
Acariciando os macios cabelos da garotinha, falou com tranqilidade.
	Est tudo bem, querida. Riley estava tentando apenas faz-la sentir-se bem-vinda, oferecendo-lhe
um presente. No foi muita gentileza da parte dele?
Paige virou o rosto na direo de Riley e o encarou, com ar de dvida.
	Quando as cobras iro embora?
O garotinho franziu o cenho, com um ar de decepo.
	No sei. Primeiro tenho de encontrar o restante delas.
	Talvez Hulk tenha comido as outras trs  sugeriu Jason, dando de ombros.  Ele est agindo de uma maneira estranha hoje. Aposto que caou uma por uma no tapete da sala de estar.
Foi a vez de Devlin franzir o cenho.
	Jason, no precisamos de seu sarcasmo.
	No se mova!  interrompeu Riley, apontando a rea prxima ao p de Abby.  H outra logo ali!
O estmago dela se contorceu mais uma vez. Porm, tudo o que ela disse foi:
	Onde  o banheiro?
Sem question-la, Devlin atravessou a sala depressa a abriu uma porta, a pouca distncia.
	Aqui.
Abby se apressou em seguir at l, mas sentiu Paige puxando-a para trs, agarrada a seu suter.
	Cuidado com a cobra!  exclamou Riley, apavorado.
Abby no pde responder. De fato, nem se atreveu a abrir a boca, pois sabia que seu estmago venceria a batalha. Ao alcanar o banheiro, entrou sem hesitar.
Assim que a viu se abaixar de frente para o aparelho sanitrio, Devlin notou que as crianas os haviam seguido.
	Afastem-se! Dem espao para ela.
O zumbido em seus ouvidos, assim como o mal-estar que sentiu enquanto seu estmago se esvaziava, impediram que Abby notasse o que ocorria a seu redor.
O desdenhar rude de Jason quebrou o aparente silncio s costas de Abby.
	Ela vai fazer isso toda vez que vir uma cobra?
	No imaginei que fosse acontecer algo assim  lamentou Riley, em tom hesitante.  Terei de me livrar de todas elas?
Respirando profundamente para se recuperar, Abby desejou que aquela fosse a maior humilhao do dia, mas sabia que o pior estava por vir. Levantando-se com a ajuda cautelosa de Devlin, ouviu-o dizer:
	Garotos, levem Paige para a outra sala.
	No!  protestou a garotinha.  No quero ir com eles. Eu e Princesa queremos ir para casa, mame.
	Querida  disse Abby , por que no acompanha Jason e Riley, e pede para que consigam um pouco de gua para Princesa? Aposto que sua gatinha est com sede.
	E quanto s cobras?  questionou Paige, arregalando os olhos.
	Elas no vo machuc-la, filha. Na verdade, devem estar com mais medo de voc do que voc delas. Alm disso, estar na companhia dos garotos.
Ao perceber o olhar desconfiado da menina ao encarar seus filhos, Devlin tentou pensar em uma soluo.
	Riley, livre-se desta cobra e v prender Hulk, para que ele no pule em cima de Paige. Jason, leve-a pela mo para que ela se sinta segura.
	E quanto  gata?  indagou o mais velho.
	Ficar tudo bem se mantiverem Hulk e Princesa em cmodos diferentes.
Mesmo parecendo agir a contragosto, Jason e Riley obedeceram sem discutir. Pouco depois, restavam apenas Devlin e Abby no banheiro.
	Posso ficar sozinha um instante?  pediu ela, sentindo a ansiedade e a tenso que dominavam o ambiente.
	Tem certeza de que pode ficar sozinha?
	Sim, claro. Preciso apenas me lavar e cuidar de certos... detalhes pessoais.
	Oh, certo. Desculpe-me. Estarei do outro lado da porta, caso precise de mim.
Assim que se fechou no banheiro, Abby abriu o gabinete da pia e notou que as toalhas se encontravam todas amontoadas, embora estivessem limpas. Resistiu ao impulso de arrum-las, pois ainda no sabia se poderia mexer em algo naquela casa. Primeiro pretendia conversar com Devlin.
Notar que no havia o menor toque feminino na casa, de certa forma foi reconfortante. Ningum pensara em colocar um espelho acima da pia. Embora a ex-esposa de Devlin o tivesse deixado mais de cinco anos antes, ela no fazia idia de qual fora o nvel de relacionamento que seu novo marido mantivera com outras mulheres desde ento. Pelo visto, no houvera ningum na vida dele com intimidade suficiente para modificar algo na casa.
Quando recebera a proposta, ouvira-o afirmar que construra uma nova residncia havia menos de trs anos, e que ela teria autonomia e liberdade para modificar tudo o que achasse conveniente. Mas at que ponto as mudanas seriam toleradas?
Mas no adiantaria fazer suposies. Muito menos quando tinha uma revelao to importante a fazer. Algo que poderia mudar os planos de ambos.
Depois de demorar o mximo possvel no banheiro, abriu a porta e o encontrou parado do lado de fora, com ar apreensivo.
	Tudo bem agora?
	J estou melhor, obrigada. Podemos conversar em algum lugar mais reservado?
	Vamos at meu escritrio.
Contente por no ser questionada quanto  necessidade de privacidade, Abby o seguiu at o cmodo, no longe dali, cuja decorao se resumia apenas a uma mesa grande, um armrio, um arquivo e uma nica cadeira.
Assim que fechou a porta atrs deles, Devlin se virou e a encarou, perguntando:
	Est doente, no ? Do que se trata? Algum tipo de doena contagiosa?
	No estou com doena alguma, Devlin. Estou grvida.
A princpio, as palavras de Abby no foram registradas pelo crebro de Devlin. Naquele momento, tudo o que ele fez foi ficar paralisado, observando a esposa, cujo corpo curvilneo e sensual parecia to esbelto quanto da ltima vez em que a vira.
	Grvida?
	O mdico previu que o beb nascer no comeo de setembro.
	Oh, sim. Entendo.
Abby tentou esboar um sorriso.
	No pensei que estivesse correndo o risco de engravidar. Eu e John nunca conseguimos ter outro filho, e pensei que...  ela se interrompeu, como se houvesse perdido a voz.  Sei que no planejamos isso, e vou assumir a total responsabilidade pelo beb.
Devlin no soube o que o surpreendeu mais: a gravidez em si, ou a calma com que Abby aceitou a nova condio.
Sua ex-mulher no aceitara bem a idia, em nenhuma das vezes que engravidara. Alternava-se entre lamentar a deformao do prprio corpo e reclamar que ele no estava lhe dando a devida ateno.
O fato de Abby no esbravejar o reconfortou. Aquilo deixava claro que ele no se enganara: sua nova esposa colocava a famlia em primeiro lugar. No era uma mulher fantica por vencer na rea profissional, como Linda.
Alm disso, jamais sentira tamanha atrao por algum. O sentimento o pegara desprevenido, derrubando suas defesas. Na noite do casamento, no conseguira se conter e fizera amor com ela at a exausto. No era de surpreender que uma gravidez houvesse sido o resultado daquela crise de sandice.
O mero fato de estarem na mesma sala, naquele momento, fazia-o sentir uma intensa necessidade de t-la em seus braos.
"Acalme-se, Hamilton", pensou ele. "No se esquea de que j violou o contrato uma vez."
Se permitisse que o desejo o dominasse, destruiria a oportunidade de seus filhos terem uma me adequada. Observando Abby  sua frente, encarando-o como se estivesse esperando uma sentena, percebeu que precisava responder algo e deixar claro que pretendia cumprir sua parte no acordo.
	Voc no produziu o beb sozinha. Contribu mos com partes iguais, no?
Abby enrubesceu.
	No sei direito o que aconteceu naquela noite. Nunca agi daquela forma. Quero dizer, jamais cheguei a ter tanto...
Ao v-la se interromper, desconcertada com a prpria confisso, Devlin sentiu uma espcie de prazer por t-la levado a sentir algo novo. No deveria, mas ficou feliz com aquilo.
	Nunca? - perguntou a ela.
	No ficou irritado por causa do beb?  Abby mudou de assunto, voltando a fit-lo com ar de cautela.
	Por que deveria? Por acaso isso a irrita?
	Quero muito ter esta criana, mas poucos homens gostam deste tipo de surpresa.
	E poucas mulheres tambm  assegurou ele, aliviando a tenso entre ambos. Porm, ficou surpreso ao descobrir que Abby no se sentia segura a seu respeito.  Nosso filho, ou filha, ser muito bem recebido por ns dois.
Ao v-la suspirar aliviada, Devlin teve a impresso de que ganhara o dia. O sorriso que recebeu foi ainda mais surpreendente, mas no tanto quanto observ-la se aproximar e beij-lo levemente nos lbios. Mal tivera tempo de aproveitar o breve contato, quando ela voltou a se afastar.
	Estou to feliz por ouvi-lo dizer isso! No imagina como fiquei preocupada.
Com a mesma rapidez, Abby pegou a bolsa e tirou dela uma folha de papel, entregando-a a ele.
	O que  isso?  Devlin indagou.
	Sei que um beb no estava includo em nosso acordo, j que no deveramos t-lo feito. Ento escrevi algumas clusulas adicionais.
	Acordo?  repetiu Devlin, segurando a folha, sem abri-la.
	Voc pagou as dvidas de jogo de John quando nos casamos, e prometi pag-lo, assim que minha casa fosse vendida. Como o mercado imobilirio est em baixa em Ohio,  provvel que demore um pouco para surgir um bom negcio. E essa criana gerar toda uma nova gama de despesas...
	Ganho mais do que suficiente para sustentar a famlia que temos, e mais uma dzia de crianas, se necessrio.
	O dinheiro em si no  o problema.
	Ento qual ?
	Sei que sua construtora d muito lucro, e sou grata por haver pagado as dvidas deixadas por John. Mas aqueles dbitos ainda so responsabilidade minha. Assim como as despesas de Paige e do beb.
	Ambos esto protegidos pelo contrato. Nada mudou. O acordo permanecer inalterado.
	At agora, o que combinamos no serviu para nada  lembrou ela.
	Aquilo no acontecer de novo  murmurou Devlin, sabendo do que se tratava aquela afirmao.  Dou-lhe minha palavra.
	Nenhum de ns sabe o que o futuro nos reserva.
	No confia em mim?
O sorriso que recebeu de Abby foi um tanto triste, mas permeado por um ar de experincia e de sabedoria.
	Descobri, j h muito tempo, que promessas nem sempre podem ser cumpridas. Mesmo que sejam sinceras.
	Somente se algum quiser mudar as regras  garantiu Devlin.
Como sua ex-esposa fizera, pensou ele. A princpio, Linda aceitara seu papel no casamento. Mas logo arrumara um emprego e descobrira que adorava ganhar o prprio dinheiro. Ela gostava de ter poder sobre os outros. Por isso, abriu mo de tudo para saciar seu desejo.
Seria aquilo o que Abby estava tentando dizer que faria? Todavia, ao fitar aquele olhar meigo e intenso, Devlin percebeu o erro de seu raciocnio.
	Seu marido quebrou muitas promessas no passado, no foi?
Ela entrelaou os dedos, como se precisasse se agarrar a algo.
	Oua, ambos fomos casados antes, e sabemos que no h garantia alguma de que um casamento dure para sempre. Tudo o que peo  que faamos um adendo ao contrato original, de forma a proteger os interesses de todos  disse a ele.
	Como?
	Leia.
 Prefiro que me diga o que escreveu aqui  insistiu Devlin.
Endireitando os ombros, Abby levantou o queixo antes de comear a explicar:
	Basicamente, o adendo estabelece o modo de pagamento do emprstimo. Manterei minha prpria conta bancria, assim no haver confuso no caso de o casamento acabar. Listei tambm os bens que no foram vendidos para pagar dvidas. De acordo com o advogado que consultei, o texto no contradiz nenhuma clusula original.
	Chegou at a consultar um advogado? J est querendo se separar?
	Claro que no!
A surpresa dela o deixou quase convencido. Quase.
	Est achando que vou deix-la em m situao, como seu marido a deixou?
	Alguma vez lhe ocorreu, no comeo de seu casamento, que sua ex-mulher iria abandonar os prprios filhos para subir na carreira?
	Voc no  Linda, e eu no sou John.
	Isso  verdade, mas namorei meu ex-marido durante muitos anos antes de me casar com ele. Pensei conhec-lo bem, mas descobri estar enganada. E quanto a ns? Acabamos nos casando poucas semanas depois de nos conhecermos. Passamos pouqussimo tempo juntos, e no sabemos o que o destino nos reservou.
	Nosso casamento ir durar.
	Ir mesmo?  indagou Abby, aproximando-se dele e pousando a mo em seu brao.  Precisamos ser prticos, Devlin. Afinal, no somos apenas ns que estamos envolvidos neste casamento de convenincia.
Por mais que quisesse repudiar aquelas palavras, Devlin sabia que Abby estava certa. No passado, cometera o erro de se deixar levar pela paixo, e seus filhos estavam pagando o preo pelo seu erro. No o cometeria outra vez.
Quando propusera aquele contrato de casamento, estava decidido a tratar a situao como um negcio profissional. No entanto, perdera o controle na primeira oportunidade que surgira.
Ao violar o acordo, no s perdera a confiana de Abby, como tambm a deixara grvida. Aceitar o tipo de postura que estava presenciando era o preo mnimo que deveria pagar pela prpria irresponsabilidade.
	Voc disse que no queria trabalhar fora.
	E no quero  confirmou ela.
	Neste caso, o que tem em mente?
	Falou que no gosta de cuidar da contabilidade, e que tem pouco tempo para detalhes burocrticos. Tenho facilidade para trabalhar com isso, e vinha prestando servios em casa, em Ohio, para no precisar me afastar de Paige durante o dia, como j lhe contei. Gostaria de assumir essas tarefas aqui, para voc. Se contabilizarmos minhas horas de trabalho, poderemos abat-las de minha dvida.
Mesmo no gostando da idia, Devlin achou melhor que Abby trabalhasse para ele, do que para alguma outra pessoa.
	Est bem. Mas no vou assinar o adendo. O contrato original prevalecer.
	Mas...
	Se colocarmos documentos demais entre ns, haver tanta confuso que no nos entenderemos mais.
	No ser nada fcil. Para ningum.
	Mas faremos tudo funcionar  assegurou Devlin.
	Oua  falou Abby, parecendo pouco convencida; teremos de mesclar nossas famlias e torn-las uma s. Ser uma tarefa complicada ajustar as trs crianas a essa nova condio. Para completar, em breve teremos uma quarta, e mal tivemos chance de nos conhecermos antes do casamento. Precisaremos agir pensando em seis pessoas, e no apenas em duas, como no princpio de qualquer casamento.  No prejudicaremos nossos filhos se seguirmos o contrato  risca.
Parecendo desistir de discutir, ela apenas caminhou pela sala, parando de morder o lbio, mas franzindo o cenho.
	H mais uma coisa que precisa saber.
	O que ?
	No tenho muito talento para cozinhar. Fiz todos os cursos de culinria que possa imaginar, mas no consigo fazer com que as receitas dem o resultado esperado.
Devlin conteve o riso ao responder:
	Ns sobreviveremos.
	Tambm no sei qual a marca de pasta de dente que voc usa, nem o que costuma fazer nas noites de sbado. Tambm no fao idia de qual seja sua comida favorita.
Ele deu de ombros.
	Uso o creme dental que estiver em oferta no supermercado, passo minhas noites de sbado lendo ou assistindo  televiso, e posso comer qualquer coisa que preparar para mim.
	Gosta de ovos?
Descobrindo-se fascinado pela preocupao de
Abby em aliment-lo, Devlin no conseguiu mais conter o sorriso, respondendo:
	O suficiente.
	Ovos, trs vezes ao dia, pode ser um tanto enjoativo...  avisou Abby.
	Acho que vou me arriscar. 
Inclinando a cabea, ela o fitou com ceticismo.
	Voc  um homem corajoso.
	E isso o que venho tentando lhe dizer durante todo esse tempo.
CAPITULO II
Na manh seguinte, Abby acordou sentindo-se melhor. A nusea desaparecera por completo. Um sorriso terno tomou-lhe os lbios ao ver Paige e Princesa dormindo a seu lado, na gigantesca cama de Devlin.
A sexta cobra fora encontrada, mas a menina se recusara a dormir no prprio quarto, com um dos animais ainda  solta.
Se bem que, depois da morte de John, tornara-se um hbito de vez em quando a filha pedir para dormir em sua cama. Como Paige se mexia muito durante a noite, parecera uma boa idia que Devlin houvesse se prontificado a dormir em uma cama de armar, no quarto da menina.
Mas aquela condio seria temporria, e logo os dois teriam de compartilhar a mesma cama. Depois do que acontecera na noite de npcias, aquela perspectiva parecia at perigosa.
Tentando ignorar a inegvel onda de desejo que a invadiu s de pensar nele, comeou a observar o quarto, notando os traos da personalidade do marido em cada detalhe.
Pensar em compartilhar com ele aquele guarda-roupa a fez sentir uma certa ansiedade. Aprendera, ao longo dos anos, a se isolar das pessoas para no se magoar. Precisava de isolamento naquele instante.
Na verdade, seu novo marido a afetava mais do que deveria. Quando o conhecera, dois meses e meio antes, em uma festa na casa da irm dele, Abby estava desesperada. O evento mal comeara e a bab que contratara para cuidar de Paige telefonou, avisando que o telhado havia cedido sob a chuva e que a casa estava cheia de goteiras. Como Devlin era empreiteiro, ofereceu-se para acompanh-la e ver se poderia ajudar.
Conseguindo improvisar algo para impedir que a situao piorasse, voltou no dia seguinte para fazer um conserto permanente. Quando Abby protestou quanto a ele perder o final de semana trabalhando de graa, recebeu em resposta um sorriso que a fez sentir-se encantada como uma adolescente, enquanto o ouvia dizer que no teria nada mais importante para fazer.
Paige se apegou de imediato a Devlin. Entretanto, o mais surpreendente foi que isso pareceu agrad-lo. Ao contrrio de John, que nunca gostara de dar ateno a crianas.
Como ela poderia resistir a algum to forte, charmoso e atencioso como Devlin? Conversaram de forma descontrada ao longo daquele final de semana, e descobriram muitos pontos em comum em suas vidas. Os casamentos malsucedidos foram um exemplo disso.
Ouvira o desabafo dele, sobre o comportamento arredio de Jason, que no confiava em mulher alguma, e sobre os problemas de Riley na escola, envolvendo-se em brigas todo o tempo.
Em resposta, ela mesma se sentiu  vontade para contar sobre a dificuldade que estava enfrentando devido s dvidas de jogo que seu falecido marido deixara, hipotecando a casa e comprometendo a segurana dela e de Paige. O simples fato de poder ter conversado aquilo com outra pessoa fora um alvio para Abby.
Quando o vira partir, no final do dia, uma estranha sensao de vazio a dominou. Mas duas semanas depois Devlin reapareceu, ajudou-a a providenciar uma bab, e levou Abby para jantar fora. Ento fizera a proposta: forneceria a estabilidade financeira de que ela precisava para criar Paige com segurana, e em troca, queria que ela assumisse o papel de me para seus filhos.
Embora parecesse loucura, aos ouvidos de Abby aquela oferta soara como uma ddiva divina. Sua nica exigncia fora que, com o tempo, devolveria o dinheiro referente s dvidas deixadas por John, j que Devlin se propusera a pagar tudo.
Ao aceitar a proposta, mal acreditou na rapidez com que Devlin providenciou tudo para que o casamento acontecesse em tempo recorde. No houvera chance para arrependimento. De fato, tudo correra perfeitamente bem, at a noite de npcias.
Aps aquele erro, haviam tido outro imprevisto. Alm de pegar catapora, Paige era alrgica ao medicamento que o mdico prescrevera, levando-as a ter de permanecer mais seis semanas em Ohio, aps o casamento, antes de se reunirem a Devlin e aos garotos, em Wiscosin.
Por estar em meio a um grande projeto, ele s pudera visit-las uma vez, ao longo daquele ms e meio. Mas, depois do que ocorrera na noite do casamento, at a camaradagem inicial desaparecera entre eles, fazendo-os se sentirem como completos desconhecidos um para o outro.
O que a confortava era saber que ambos estavam cientes do que queriam. Nenhum deles buscava amor, e aquilo facilitaria tudo.
Abby fora abandonada tantas vezes ao longo da vida, por pessoas que diziam am-la, que aprendera a no baixar a guarda nem acreditar em sonhos. Sabia que no se construa um futuro com iluses.
Levantando-se da cama, tomou um banho demorado e relaxante. Ao chegar  cozinha, notou que j eram quase onze horas da manh. Tarde demais para o desjejum.
Tudo o que poderia fazer seria preparar o almoo e comear sua nova vida em famlia. Precisaria aprender a ser a me dos filhos de Devlin.
Enquanto se aplicava em tal tarefa, foi surpreendida por ele, que entrou na cozinha sem camisa, mantendo uma expresso sonolenta. A mera viso daquele corpo perfeito e sensual a fez perder o flego e ter um comeo de vertigem.
"Acalme-se, Abby", ordenou a si mesma. "No se esquea de que  uma mulher casada, com crianas em casa. Pare de agir como uma adolescente fascinada."
	O que est fazendo?  indagou ele, com a voz mais grave que do que o normal, por haver acabado de acordar.
	Preparando o almoo. Parei em um restaurante italiano ontem  tarde, a caminho daqui, e comprei comida para viagem. Este deveria ser nosso jantar da noite passada, mas servir para hoje.
	Deveria ter me acordado para que eu pudesse ajud-la.
	No, no. Ouvi seus passos ao longo da noite, e sei que no dormiu cedo.
	E que Hulk ronca um bocado.
	Hulk?  perguntou ela, demorando um pouco para se lembrar de que se tratava do co.
	Sim. Aquele cachorro ronca mais do que um motor de caminho! Mas no pude fazer nada, j que ele insistiu em ficar comigo no quarto de Paige.
	Lamento pelo comportamento de minha filha, mas ela ficou apavorada com as cobras.
	No h problema. Deixe-a se acostumar  famlia com tranqilidade.
Abby estava tentando ignorar aquele peito msculo e aqueles braos fortes quando o viu se aproximar de repente e colocar a mo em sua testa.
	O que foi?  indagou, surpresa.
Devlin franziu o cenho, fitando-a com ateno.
	Como se sente esta manh? Seu estmago ainda a incomoda?
	No estou doente, apenas grvida - respondeu ela, afastando-se depressa. Era difcil pensar com clareza quando sentia seu corpo em contado com o dele.  Estava muito cansada ontem  noite. S isso.
	No deveria ter feito a viagem de uma s vez.
	Isso j passou. Por que no aproveita que j estou terminando e toma um banho? Servirei o almoo em vinte minutos.
Com um sorriso devastador, o olhar de Devlin se fixou nos lbios dela, deixando-a paralisada por um instante.
	Se prefere assim, tudo bem.
	Se vocs no vo se beijar de uma vez, podem abrir a porta dos fundos para Hulk entrar? Do jeito que ele est impaciente, acabar arrombando a entrada da cozinha a qualquer momento.
A voz de Jason quebrou o encanto do momento, permitindo que Abby voltasse a se mexer, distanciando-se de Devlin com um sobressalto. A hostilidade na voz do garoto era to bvia quanto o desespero do cachorro, arranhando a porta.
	Sinto muito. Esqueci que havia deixado Hulk para fora. O coitadinho deve estar faminto.
Devlin a impediu de prosseguir em direo  porta, segurando-a com delicadeza, enquanto dizia:
	No se incomode. Jason pode cuidar de Hulk. Riley apareceu pela outra entrada, com ar de interesse.
	Vocs estavam se beijando? Por que sempre perco a melhor parte?
O irmo mais velho desdenhou do menor, com ar de superioridade.
	E o que voc sabe sobre "a melhor parte"? Esqueceu que ainda  uma criana?
	No posso fazer nada quanto a isso, a no ser imaginar. No deixam que faamos sexo no parquinho da escola  protestou o menino, com uma careta de desgosto.
Abby no conseguiu conter uma gargalhada, mas Devlin no pareceu gostar da piada.
	Riley, acompanhe seu irmo e v cuidar de Hulk. Depois, tratem de se vestir.
Resmungando, Jason segurou o caula pelo brao e o levou para fora.
	Venha, nanico. Ficar aqui dentro est comeando a perder a graa.
Depois que os garotos saram, Abby falou:
	Jason no parece muito feliz com o rumo que os eventos tomaram.
	Na idade dele, esse tipo de cinismo  considerado uma forma de charme. Com o tempo, qualquer um se acostuma.
	Ele era muito apegado  me?
	Linda s se interessava pelo prprio trabalho. Ns todos ramos considerados meros obstculos em seu caminho.  Devlin se virou e comeou a se afastar.  Estou indo tomar aquele banho que voc sugeriu, e voltarei daqui a pouco.
Ao v-lo partir, Abby comeou a achar que a casa, de repente, havia se tornado fria e desconfortvel.
Enquanto acabava de preparar a refeio, Abby ouviu alguns murmrios ocasionais pela casa. At que a porta da cozinha se abriu de repente, e Jason falou:
	Papai quer saber se est precisando de ajuda com alguma coisa.
	Voc poderia colocar a toalha na mesa, se no for muito trabalho  sugeriu ela.
Aps terminar a tarefa, o garoto fechou a porta atrs de si. No instante seguinte, foi a vez de Riley repetir a mesma oferta.
	Papai quer saber se precisa de ajuda.
	O que acha de colocar os pratos na mesa? 
Quando o menino deixou a cozinha, quase colidiu com Paige, que estava entrando.
	Mame, Princesa e eu tambm queremos ajudar.
	Depois de colocar a gata no quarto, v lavar as mos e venha colocar os guardanapos na mesa, est bem, querida?
	Mas Princesa no est suja. Ela fica se lambendo o tempo todo. Posso apenas lamber minhas mos tambm?
	No. Voc precisa usar gua e sabo de verdade.
	Por qu?
	Porque voc no  uma gata. Agora apresse-se porque vamos comer daqui a pouco.
Paige soltou um suspiro exagerado enquanto se encaminhava para a porta.
	Quando eu crescer, vou querer ser uma gata.
	Tudo bem. Mas por enquanto continua sendo uma garotinha com as mos sujas. V logo lav-las, querida.
Dez minutos depois, Abby havia preparado os pratos. Depois de servir todos, sentou-se  mesa.
	Isso parece delicioso, no?  indagou Devlin, olhando para os garotos.
	No sabia que se podia comer isso  murmurou Riley, espetando a massa em seu prato, com ar confuso.
Jason olhou para o prprio prato com mais suspeita do que nunca, perguntando:
	O que  isso?	
	Implante de seios  respondeu Riley, com um ar pensativo.  Vi isso na televiso ontem.
Enquanto o garoto mais velho ria com divertimento, Devlin retirou o garfo da mo do caula.
	J chega, meninos. Sejam educados ou deixem a mesa. Agora se desculpem com Abby.
O pequenino empalideceu e ficou cabisbaixo por um momento, antes de encar-la e dizer:
	Sinto muito.
Abby no queria que o primeiro almoo em famlia fosse arruinado.
	Isto  ravili  respondeu, com um ar bem- humorado.  Mas concordo que a aparncia dele est bastante estranha.
Devlin lanou um olhar no melhor estilo de "comportem-se" para os filhos, antes de falar:
	Eu e os garotos temos comido quase somente enlatados ao longo dos ltimos anos. Ter refeies caseiras ser uma nova experincia para ns.
	Bem  murmurou Abby, sentindo-se pouco  vontade , no se trata exatamente de comida caseira. Como eu disse, comprei o ravili em um restaurante, e apenas o aqueci no forno de microondas. Paige adora essa massa, no  mesmo, querida?
	Com licena?  pediu Jason, afastando a cadeira para trs.
	Mas ainda no acabou de comer  disse Devlin.
	Tudo bem  falou Abby, sendo ignorada e interrompida pelo adolescente, que continuou encarando o pai.
	Estou sem fome.
	E mesmo? Pois depois de todo o trabalho que Abby teve em preparar essa refeio, voc vai ter de com-la. Ou passar o restante do dia em seu quarto.
	Para mim, est timo  afirmou Jason, jogando o guardanapo sobre o prato e se levantando.  No pedi que ningum preparasse nada para mim. No acha mesmo que ela ficar aqui por muito tempo, acha?
	Jason!
O garoto deixou o aposento com passos firmes, mesmo depois que o pai o chamou.
	Mame?  murmurou Paige, em um tom triste.
	Podemos ir para casa agora?
	Esta  nossa casa, querida  garantiu Abby, tentando parecer mais segura do que se sentia.
	Pode subir para o andar de cima, desfazer sua maleta, e guardar tudo nas gavetas de seu novo quarto.
	No gosto daquele quarto! Quero ficar com voc.
	Podemos discutir isso depois, filha. Por que no vai ver o que Princesa est fazendo?
Depois da sada de Paige, Riley colocou o garfo sobre o prato.
	Podem me dar licena tambm?
	Claro  respondeu Abby, contendo um suspiro. Antes de sair, o garoto parou  porta e pediu:
	Podemos ter estrogonofe para o jantar? Eu sempre gostei desse prato!
	Vai ser difcil arrumar isso para hoje  noite, mas vou tentar atender a seu pedido ao longo da semana, est bem?  perguntou ela, tentando anim-lo.
Riley sorriu ao responder.
	Maravilha!
	Voc gosta de ovos?
	Hum... Gosto deles mexidos.
	timo. Ento ser assim que os ter  assegurou ela, esperando que o garoto sasse, antes de se voltar para Devlin.  Tenho a impresso de que Riley vai ficar desapontado com meu limitado repertrio de receitas.
	No me casei com voc por seus dotes culinrios 	disse ele, fazendo uma pausa.  Oua, Abby, eu lamento tudo isso. Os garotos foram rudes com voc.
Farei com que Jason se desculpe.
 Devemos lhe dar algum tempo para que ele se acostume  nova situao. No lhe diga nada, por enquanto.
Talvez seja uma boa idia contratar uma governanta. Algum para ajud-la...
 No. Concordamos que eu tomaria conta das crianas.
	Por quanto tempo?
A pergunta pegou-a desprevenida.
	O que est querendo dizer com isso?
	J consultou um advogado para saber como funcionaria nosso divrcio. Quanto tempo demorar at que decida que esse casamento no vale o esforo e o procure novamente, para que comece o processo de separao de uma vez por todas?
	No procurarei advogado algum. S precisamos dar algum tempo at que as crianas se ajustem  situao.
	E se esse ajuste no acontecer?
Abby percebeu as cicatrizes deixadas pelo casamento anterior de Devlin, e compreendeu o que o levara a ficar to alterado. Pelo visto, promessas no o deixariam mais tranqilo ou seguro.
	No sei. Teremos de lidar com um dia de cada vez.
	Por quanto tempo?
	No sou do tipo que desiste facilmente  afirmou ela, com sinceridade.  Mas tambm no quero que nosso beb nasa em meio a uma famlia que esteja em p de guerra.
Ele afastou a cadeira e se levantou.
	Neste caso, farei com que Jason se desculpe antes do jantar.
Quando ficou sozinha, Abby pensou no fiasco que fora aquele almoo, e perguntou a si mesma que tipo de vida todos eles teriam juntos, se no conseguiam nem se comportar como uma famlia.
CAPTULO III
Em uma escala de um a dez, Devlin concluiu que ele atingira a marca de menos sete. Na verdade, deveria ter atingido tal pontuao com sinal positivo. Mas nunca fora muito paciente com certos tipos de situao. Estava habituado a fazer tudo de forma direta.
Mas, naquele caso, forar a questo com Abby fora uma atitude precipitada. Ela no merecia ser julgada pelos erros de Linda.
Antes de voltar para casa, precisaria clarear a mente. Para tanto, estava tentando descarregar a tenso com seu exerccio fsico predileto: cortar lenha. Nada o aliviava mais do que o manuseio do machado.
O ar frio e seco de fevereiro agredia suas narinas a cada flego, mas aquilo no parecia incomod-lo. O importante era sentir o alvio, ao final de cada machadada.
Comprara aquele terreno depois da separao. Ao lado de Linda, vivera oito anos de conflitos constantes, cheios de insatisfao e de decepes. Quando construra aquela casa, quisera criar um lugar onde seus filhos tivessem liberdade, espao, e nenhum referencial deixado pela me deles. Nenhum toque de egosmo.
Mas os garotos precisavam de influncia feminina. Ao longo dos ltimos cinco anos, isso ficara mais do que claro. Contudo, a experincia lhe ensinara que no adiantaria se casar outra vez, pois os votos do casamento no eram nada mais do que meras palavras. No havia como saber se a pessoa pretendia ou no cumprir a parte do "at que a morte os separe".
J sabia que no deveria acreditar no amor. Uma paixo no durava mais do que alguns meses, e podia levar algum a cometer muitos erros. E as conseqncias seriam sofridas tambm pelos garotos. Assim sendo, no havia como atender s exigncias de uma mulher que quisesse ser amada, logo no poderia se unir a ningum.
O que precisava era de uma me para seus filhos. Algum que no desejasse sair de casa e ganhar seu espao no mundo profissional, abandonando as crianas.
Ento surgira Abby, como um presente enviado pelo cu.
No demorara para Gayle lhe dar todas as informaes que ele precisava ter sobre ela. A atraente vizinha de sua irm era a pessoa por quem ele sempre procurara. A deciso fora tomada com rapidez e certeza.
Casar-se com Abby seria a soluo ideal para seu problema. Encontr-la, fora como descobrir uma mina de.diamantes. Ela era segura, linda, sincera, dedicada  filha, carinhosa e, acima de tudo, no esperava encontrar outro grande amor na vida. Em resumo, a mulher perfeita para ele.
De repente, a lembrana do que ocorrera na noite de npcias lhe veio  mente, e o suor de suas mos fez com que o machado escorregasse e voasse alto, antes de se fincar no cho com incrvel violncia, a menos de um metro de seu p.
Com os olhos arregalados, repreendeu-se mentalmente: "Isso  bom para que aprenda a manter a ateno no que  importante!"
No era de surpreender que Abby quisesse acrescentar novas regras ao contrato, e que houvesse consultado um advogado. A atitude de se deixar dominar pelo desejo naquela noite fora mais do que comprometedora. Deveria honrar sua promessa de cumprir o contrato para que aquele casamento de convenincia pudesse funcionar.
O primeiro almoo no fora um comeo muito promissor para a unio das famlias. At mesmo uma pessoa compreensiva como ela tinha seus limites. Abby crescera como uma criana solitria, e parecia haver se tornado muito forte com o passar do tempo. Mas at quando ela agentaria a presso?
Recolhendo o machado, deu um golpe certeiro na tora que jazia  sua frente, dividindo-a em duas partes com preciso absoluta.
Era chegada a hora de entrar e conversar com Abby. Sabia o que deveria fazer. No deixaria que as ms experincias do passado estragassem o futuro de sua famlia. No poderia fazer nenhum milagre, mas tentaria evitar que ela se desgastasse por causa dos garotos, ou por qualquer outra coisa. Com um pouco de bom senso e de pacincia, teria sucesso.
Dando meia-volta, voltou para casa.
Entretanto, a deciso de confiar em Abby, e de aprender a ter pacincia desapareceram no momento em que Devlin entrou na cozinha e a viu no topo de uma escada velha, que balanava sem parar.
Aparentemente inconsciente do perigo, ela tentava alcanar alguma coisa no fundo da ltima prateleira de um dos armrios. Ao ver a escada se inclinando, ele sentiu um n se formar em seu estmago, e agiu por puro reflexo.
Com um movimento rpido e preciso, saltou na direo dela e a segurou em pleno ar, mantendo-a nos braos, enquanto a escada parecia cair "em cmara lenta", diante de seu olhar atnito.
	Devlin?
Ao rudo do impacto da escada com o cho, os dois saltaram de susto. Ele no a soltou de imediato. Aproveitou para inspirar um pouco do perfume suave que o envolveu enquanto estavam abraados.
Fitando-a com olhos arregalados, perguntou:
	O que estava fazendo em cima dessa velharia?
Notou que alterara o tom de voz, mas como poderia ser paciente, ao v-la arriscando a prpria vida no alto de uma escada quebrada?
Soltando-se dos braos dele assim que seus ps tocaram o cho, Abby respondeu:
	Eu estava apenas reorganizando algumas coisas no armrio  murmurou ela, com um ar inseguro.  Mas se tem alguma objeo, posso colocar tudo onde estava.
Boa parte da tenso se esvaiu do corpo de Devlin.
	Pouco me importa se quiser guardar os talheres no armrio do banheiro ou coisa do gnero. S quero que me informe quando quiser pegar algo que esteja fora de seu alcance. No quero que caia e se machuque. Lembre-se do beb.
Abby estreitou o olhar.
	Tambm vai querer que eu carregue uma caixa de primeiros socorros comigo, todo o tempo?
 No sou nenhum idiota superprotetor  disse ele, abaixando-se para pegar a escada.
	Acho que estamos um pouco tensos.
	Sim. Essa  uma maneira branda de abordar o assunto  falou Devlin, passando a mo pelos cabelos. Percebeu que no estava nervoso por causa do episdio da escada, mas pela lembrana da noite de npcias.  Vamos ao que interessa. O que mais
voc pretende mudar de lugar?
Abby apontou para algumas peas, indicando para que fossem colocadas no balco.
	Obrigada  agradeceu quando ele as colocou no lugar que ela mostrara.  Agora posso cuidar do restante.
	No acha melhor que eu fique para ajud-la?
	De jeito nenhum. Preciso aprender a me sentir  vontade nesta casa, e o meio mais fcil ser comear pela cozinha.
Cruzando os braos, ela deixou claro que estava delimitando seu territrio.
Devlin precisou se conter, pois, ao ver o movimento daqueles seios perfeitos, repousando em meio queles braos cruzados, sentiu uma onda de desejo aquecer seu corpo. Seria difcil permanecer ali e pensar em algo mais que no fosse ligado a sexo. De repente, a cozinha pareceu ficar quente demais.
Assim que ele comeou a tirar a jaqueta, Abby pegou um pequeno caderno de notas, que estava sobre o balco.
	A menos que faa alguma objeo, preciso ir at a cidade para comprar alguns mantimentos.
	Eu a levo  respondeu ele, voltando a vestir o agasalho.  Jason pode tomar conta das crianas, j que est proibido de sair.
	No precisa se dar ao trabalho. Estou acostumada a fazer compras sozinha, e tenho prtica em descobrir caminhos em lugares desconhecidos.
Aquela afirmao o fez esquecer do desejo que sentia. Devlin pensou no tipo de vida que ela tivera, obrigando-a a lidar com situaes desconhecidas com tanta freqncia a ponto daquilo se tornar um hbito.
	Preciso que assine os documentos de nossa conta conjunta no banco. Agora  um momento to apropriado quanto qualquer outro  salientou ele.
	Vou manter minha prpria conta, est lembrado? 
"Pacincia, Hamilton", pensou ele, disfarando o desapontamento.
	Mas os mantimentos e as despesas da casa devero ser pagas com o dinheiro de nossa conta conjunta. E no adianta protestar porque este  um dos termos do contrato.
	Acho que est certo. Dinheiro  sempre um tema difcil de se lidar, no?
	No, se no o considerarmos um assunto difcil de ser abordado.
Evitando encar-lo, Abby o observou pegar a chave do carro e a carteira. S ento voltou a falar:
	Estarei pronta em cinco minutos.
Devlin sabia que ela no havia desistido de manter a conta individual, mas tambm iria se manter fiel ao acordo, e usar a conta conjunta para as despesas. Preferiria compartilhar tudo de uma vez, mas percebeu que no era o momento de forar aquela deciso.
Mas, com o tempo, usaria todos seus recursos para faz-la mudar de idia.
Abby o observou dirigir o carro na estrada, conduzindo-o com habilidade. Enquanto seguiam para a cidade, a tenso e o silncio dentro do veculo eram quase palpveis.
Parecia um enorme contraste, em relao ao companheirismo que haviam compartilhado quando se conheceram. Mas tal lembrana parecia distante naquele momento.
Ambos estavam se sentindo sob grande presso. Seria o resultado daquela malfadada noite de npcias?, ela se perguntou. Com certeza, sim.
Como ignorar o que estava sentindo por Devlin? Por que aquelas ondas de desejo insistiam em tentar domin-la? Se as ignorasse por completo, talvez as sensaes acabassem desaparecendo. Talvez.
Devlin quebrou o silncio, depois de alguns quilmetros.
	Riley est procurando um lar para as cobras. Pelo que entendi, o laboratrio da escola  o nico lugar que vai aceit-las.
Abby deixou parte da tenso se esvair de seu corpo.
	Quem sabe ele no possa manter uma delas?
	Trs crianas, um beb, um enorme cachorro e uma gata j oferecem uma vida suficientemente selvagem para ns dois, no acha?
	Mas ele no vai ficar muito desapontado?
	Por enquanto, sim. Mas logo Riley estar inventando algo novo. Pode acreditar que ele ainda no est se sentindo apegado quelas coisinhas escorregadias.
Abby no pde conter um sorriso.
	Sendo assim, eu acredito.
	Acho que deveria fazer isso com mais freqncia.
	Fazer o qu?
	Sorrir  respondeu Devlin, olhando-a de soslaio.
	Acho que tenho andado um tanto tensa.
	 compreensvel. Ns dois temos estado sob presso.
Reconhecendo que ele estava usando um tom de pedido de desculpas, Abby sorriu com mais naturalidade.
	Sim,  compreensvel  repetiu ela.
Ao ouvir a risada espontnea de Devlin, comeou a rir tambm. Havia algo que a fazia sentir-se mais atrada por ele a cada instante. Na verdade, estava sendo difcil conter o desejo de toc-lo e de acarici-lo.
	Acho que nenhum de ns poderia ter previsto o que aconteceu nos ltimos tempos  disse Devlin.
	No. Casamento e crianas so elementos imprevisveis demais. Nunca sabemos ao certo o que teremos pela frente. Oh, por falar nisso, aqui em Humphrey h alguma pr-escola para crianas de quatro anos?
	Sim, e j conversei com a diretora  respondeu ele.  Ela est esperando que leve Paige at l para conhecer o lugar.
	Fico grata por haver pensado na minha filha.
	E isso que qualquer pai teria feito, no?
	Nem todos.
	Mas o fariam, se houvessem sido criados pela minha me.
Abby voltou a sorrir.
	Gostei muito de seus pais.
	Pois saiba que o sentimento  mtuo. Eles a adoraram.
	J contou sobre o beb?
	No.
	Acho que isso ser um grande choque. Afinal de contas...
A risada de Devlin a fez parar de falar de repente.
	Minha me ficar enrubescida, e meu pai me dar uma caixa de charutos, mesmo sabendo que no fumo. No dei a notcia porque mame iria querer vir at aqui, para tomar conta de voc. No creio que esteja pronta para isso. Ela j ficou muito empolgada com nosso casamento, e mal est podendo esperar para comear a bajular Paige. Adicione um beb a tudo isso, e ela logo se mudar para nossa casa.
	Toda essa ateno seria muita gentileza da parte dela.
Devlin fez um ar de desdm.
	Espere s at ela querer ajud-la a decorar o quarto do beb. Como  professora aposentada, vai querer ench-lo de brinquedos pedaggicos.
	Sua me  uma mulher muito inteligente  elogiou Abby, que admirava a dedicao da sogra a qualquer assunto que envolvesse crianas.
	E o que ela vive dizendo para meu pai.
	H quantos anos eles esto casados?
	Quase trinta e cinco.
	So pessoas de sorte, no?
Depois de uma pausa, Devlin respondeu:
	De acordo com a teoria de papai, cada pessoa constri a prpria sorte.
Seria esse o motivo de ele haver proposto aquele casamento? Estaria tentando construir a prpria sorte?, Abby se perguntou, em pensamento.
Enquanto o observava estacionar o carro em uma das ruas de Humphrey, concluiu que seria preciso muito mais do que sorte para poderem ter um futuro garantido. Havia muito a superar.
Depois de uma rpida passagem pelo banco, onde Abby se sentiu grata por Devlin no tentar dissuadi-la de abrir sua conta individual, foram ao supermercado. Enquanto o olhava empurrar o carrinho, ainda meio vazio, ouviu uma voz feminina dizer:
	Devlin Hamilton, que histria  esta de haver se casado sem contar nada a seus melhores e mais antigos amigos?
Devlin deu uma piscadela para Abby, antes de se dirigir  mulher de estatura baixa e de olhos castanhos, que se aproximava.
	No lhe contei nada para que no desse a notcia quele desastrado do seu marido. No poderia correr o risco de v-lo tentar convencer minha noiva a no se casar comigo.
	Eu ouvi isso!  exclamou um homem quase to alto quanto Devlin, que acabara de se aproximar da mulher.  Ficou com medo que eu contasse a ela sobre seus vcios?
	Meu nico vcio, do qual venho tentando me livrar ao longo dos ltimos vinte anos,  nossa amizade. Mas voc insiste em ficar por perto.  O tom jocoso de Devlin era desmentido pelo sorriso sincero em seus lbios.  Abby, quero que conhea Rebecca e Cash Castner. Becky  uma excelente pessoa, exceto por seu gosto duvidoso por homens.
	Est apenas com inveja por eu haver me casado com a nica mulher decente de Humphrey  provocou Cash, com ar de divertimento.
	Calem-se, rapazes  disse Becky, soltando uma risada bem-humorada.  Deste jeito, Abby pensar que no somos civilizados.
	Ei, estamos em Wiscosin. Ela descobriria a verdade cedo ou tarde!  protestou Cash.
 Sim  concordou Devlin.  Meu amigo aqui  o modelo ideal de um ser no civilizado.
Depois de alguns minutos de conversa e de brincadeiras, Abby j estava se sentindo como se conhecesse o casal desde muito tempo. Ambos eram pessoas dceis, amveis e inteligentes. Principalmente Becky, que se aproximou dela para conversarem com mais intimidade. Contou que tambm tinham uma filha de quatro anos, que seria colega de classe de Paige.
A forma como fora aceita deixou-a comovida. Quando os homens se afastaram para pegar alguns itens das compras, Becky falou:
	Tenho um timo instinto para reconhecer o carter das pessoas, e sei que posso confiar em voc, Abby. Imagino que no ser fcil unir as famlias de vocs, e quero que saiba que, quando precisar de uma amiga, pode contar comigo.
	Nem sei o que dizer... Obrigada, Becky. Devlin e o amigo retornaram pouco depois. Cash lembrou a esposa de um compromisso, e o simptico casal partiu, deixando-os sozinhos para completar as compras.
Porm, Abby e Devlin no voltaram a trocar muitas palavras depois daquilo.
CAPITULO IV
A viagem para casa foi tranqila, mas silenciosa.
Dominada por um sbito cansao, Abby recostou a cabea no banco do carro e manteve os olhos fechados ao longo do trajeto.
Ao chegarem em casa, Devlin a ajudou a levar os pacotes at a cozinha, antes de voltar a se ocupar com a lenha do lado de fora.
Enquanto guardava as compras, Abby viu Riley entrar na cozinha, com um ar de expectativa.
	O que vocs trouxeram? Ela lhe entregou um pacote.
	Seu pai me disse que voc gosta destes biscoitos com recheio de baunilha.
O sorriso do garoto foi imediato.
	Hum! Posso comer um agora?
	Acho que um ou dois no devero estragar seu apetite pra o jantar, certo?
Abby mal conteve o riso ao v-lo abrir o pacote e pegar dois biscoitos, antes de sair correndo. Sempre imaginara como seria ter um filho. Riley era o tpico menino levado, sempre despenteado, trajando camisetas enormes e tnis sujos. Era impossvel no gostar dele.
Pouco depois, Paige entrou na cozinha, abraada  sua inseparvel gata.
	Mame, o que trouxeram para mim? Lembrou do meu cereal favorito?
	Est na sacola grande  respondeu Abby, franzindo o cenho ao notar os riscos rosados ao redor dos lbios da filha.  Por acaso andou brincando com minha maquiagem outra vez, querida?
	S usei um pouquinho, mame. Mas Princesa no gostou muito. Ela comeou a espernear e a se esfregar no cho e nos mveis.
Decidindo verificar os danos, antes de dar o sermo e definir a punio, Abby se manteve calma e conteve o impulso de correr para o andar de cima no mesmo instante.
Jason entrou na cozinha naquele momento. Com seu habitual mau humor, repreendeu o caula por estar comendo antes do jantar.
Agindo como Riley, Abby ignorou o comentrio e apontou para um dos pacotes que estavam sobre o balco.
	Seu pai me falou de seu gosto por biscoitos de manteiga de cacau. Trouxemos duas caixas para voc.
	No gosto desses que se compram prontos  resmungou o adolescente.
	Por que no faz mais daqueles biscoitos aucarados? Foram os melhores que j fez aqui em casa  disse Riley.
	Voc cozinha?  perguntou Abby, tentando no demonstrar muito interesse.
O rapazinho comeou a corar.
	Algum precisava faz-lo.
	Ele  o melhor!  elogiou Riley.  A vov sempre diz que Jason deveria estudar para ser um grande cozinheiro. Precisa ver as comidas gostosas que faz para ns. Quando quer, claro.
Notando a tenso que dominou seu enteado mais velho, Abby decidiu arquivar aquela importante informao e fingiu no haver prestado ateno ao que ouvira.
	Ei! Por que h tantos ovos nesta sacola grande?  indagou Riley, enquanto espiava as compras.
	Por acaso no gosta de ovos?  questionou Abby, preocupada.
	Gosto.
	Ns duas gostamos muito  disse Paige, com ar srio.
Depois de um longo silncio, Jason se aproximou das compras, pegou uma lata e disse:
	Papai no pode comer isto aqui. Ele  alrgico a cogumelos.
	Tudo bem  respondeu ela.  Podemos doar ao abrigo para desamparados. Por acaso eles fazem coletas na sua escola?
Dando de ombros, o jovem colocou a lata no mesmo lugar.
	Tomara que no haja nenhum alrgico entre os mendigos que vo comer l.
Sem olhar para trs, saiu da cozinha, andando depressa. Mas Abby percebeu que ele levara consigo um pacote de biscoitos.
Devlin sentia-se faminto.
No no aspecto fsico da palavra, pois jantara todas as noites, naquelas ltimas trs semanas, com Abby e as crianas. Experimentara todas as receitas possveis de ovos mexidos que algum poderia comer e, ainda assim, sobreviver.
Na verdade, estava pouco se importando com a habilidade culinria de Abby, e no tinha motivo para reclamar de nada. A no ser da solido que o acometia todas as noites, levando-o a ficar sozinho ao lado do pequeno celeiro do quintal, onde cortava lenha at de madrugada. Mas no havia o que fazer. Aquele contrato pendia entre eles o tempo todo, como uma corrente atada s suas mos.
Haviam feito um acordo, e precisaria respeit-lo para mant-la ali. Porm, nunca imaginara que seria to difcil observar que, exceto pelo evento da noite de npcias, Abby estava se mantendo fiel ao texto que haviam redigido juntos. Assim como ele prprio. Mas o custo estava sendo muito alto: sua paz de esprito.
Embora ainda estivessem se ajustando como famlia, os resultados pareciam estar dentro do esperado. Riley se afeioara muito a ela, e Paige no estava tendo maiores problemas, exceto por se recusar a dormir no prprio quarto. O que o deixava sempre na cama de armar.
Na verdade, aquela situao era um alvio. No sabia se conseguiria manter sua palavra se houvesse de dividir a cama com Abby. Estava desejando-a loucamente, e temia perder o controle a qualquer momento. No havia explicao para aquele comportamento adolescente, mas ele era bem real.
Ao mesmo tempo, considerava-se com sorte por haver sido perdoado pelo evento da noite de npcias, e por no t-la feito desistir antes mesmo de comear a viver com ele.
Contudo, como poderia afastar a lembrana de ter aquele corpo perfeito em seus braos, aquela pele nua sob seu toque, enquanto faziam amor como um verdadeiro casal apaixonado?
"Nem pense mais nisso, Hamilton", censurou-se em pensamento. Seria melhor se acostumar  idia de no poder t-la. Talvez dali a trinta anos seu desejo comeasse a diminuir, quando estivesse chegando  casa dos sessenta e cinco.
Quando ergueu o machado para partir uma pequena tora em duas, querendo descarregar um pouco da energia acumulada, ouviu a voz de Abby atrs de si.
	Devlin?
O machado lhe escapou da mo e caiu a seu lado, fazendo-o saltar para no ser atingido.
De repente, sentiu o suave toque daquela mo gentil sobre seu brao. Ao se virar, estava a menos de um palmo do rosto dela, que trazia uma expresso preocupada.
	Tudo bem com voc? No se machucou?
	Estou timo' respondeu ele, tentando afastar o desejo de tom-la nos braos e de despi-la ali mesmo.
	O que aconteceu?
	Senti um comeo de cibra no brao  improvisou Devlin.
	Isso acontece com freqncia?
"Apenas quando estou perto de voc", pensou ele, dizendo:
	Dormi de mau jeito na noite passada, e estou com o corpo um pouco tenso.
Aqueles lindos olhos azuis o fitaram com intensidade, e uma onda de preocupao se fez notar no rosto suave e gentil.
	Aquela cama de armar no  grande o suficiente para voc. Posso ficar com Paige no quarto dela. Assim descansar melhor, em seu prprio quarto.
	No.
  No?
  melhor que fique onde est, j que a cama  mais espaosa. O beb comear a chutar em breve, e ser melhor que tenha muito espao para se acomodar.
 Talvez ns trs consigamos nos acomodar l, caso no se incomode com o sono agitado de Paige.
	Estou bem na cama de armar. No se preocupe.
	Bem, se est to certo...
A nica certeza de Devlin era a de que no queria se arriscar a ficar na mesma cama que ela. No at que seu desejo estivesse completamente extinto. Talvez isso acontecesse algum dia.
Abby se abaixou e pegou o machado, entregando-o a ele com todo cuidado. Ento o fitou outra vez e disse:
	Precisamos conversar.
	Algum problema com o beb?
	No. Nosso filho est muito bem. O sorriso dela o deixou mais calmo.
	Ento o que foi? Os garotos fizeram algo. Jason a ofendeu?
	Tambm no  isso. Mas tem certeza de que est mesmo bem, Devlin? Parece tenso demais. Quer que eu massageie seus ombros?
Contendo um gemido de desespero, ele imaginou como seria prazeroso sentir as mos dela em seu corpo. Mas no poderia correr o risco de cometer outro erro.
	Por que no entramos em casa?  sugeriu de repente.
	No pretendia faz-lo se afastar de seu trabalho. Sei que tem andado ocupado aqui fora...
A voz de Abby pareceu sumir no momento em que ela viu as trs gigantescas pilhas de toras cortadas, colocadas ao lado do celeiro. No era preciso ser um detetive para deduzir que ali havia lenha suficiente para aquecer a casa durante trs invernos severos e longos.
No querendo dar a ela a oportunidade de pensar muito a respeito daquilo, Devlin a conduziu porta adentro. Quando chegaram ao escritrio, Abby apontou a cadeira e disse:
	Sente-se para que eu possa alcanar seus ombros.
	No precisa fazer massagem em mim.
	Sim, preciso. Seu incmodo  o preo que est pagando por haver cedido sua cama para que Paige e eu tivssemos conforto. O mnimo que posso fazer  amenizar as conseqncias. Alm disso, prefiro ter algo com que me ocupar enquanto falo.  mais relaxante.
Para ela, talvez, pensou Devlin. Para ele, porm, seria uma verdadeira sesso de tortura.
	Est bem  anuiu, sentando-se.
	No   toa que teve um comeo de cibra  disse ela, quando comeou a massage-lo.  Seus msculos esto rijos como pedras! Uma de minhas mes adotivas me disse que devemos sempre prestar ateno ao nosso corpo.
	Quantas mes adotivas teve ao longo de sua vida? Mais de uma?
	Doze.
	Por que tantas?
	Mudanas de situao. Alguns casais tinham crianas demais para cuidar. Uma das famlias decidiu parar de participar do programa de adoo temporria para adotar um casal de recm-nascidos. Outra se mudou para outro estado, onde as leis eram diferentes. Houve tambm os casos de algum desistir do processo apenas por achar que era muito dispendioso. Alm disso, admito que no facilitei muito as coisas, ao longo de minha adolescncia.
	Deve ter sido difcil.
	No  to ruim quando se aprende a no esperar nada dos outros. Aprendi a me manter livre e a ser flexvel.
	E a manter a mala pronta?
A risada que Devlin ouviu atrs de si ocultava uma profunda tristeza.
	Isso tambm  confirmou Abby.  Relaxe. Est ficando tenso outra vez.  Aps uma breve pausa, acrescentou:  Minha infncia no foi totalmente ruim.
	Oh!  sussurrou ele, desejando poder mudar o passado e fazer com que aquela mgoa desaparecesse da voz de Abby.
	Mas, mudando de assunto, eu gostaria de lembr-lo de algo.
	O qu?
	Ainda no me mostrou o que precisa ser feito em seu sistema administrativo.
	Sistema administrativo?
	Sim, para que eu possa fazer a contabilidade e os servios burocrticos. Quero comear a pagar o emprstimo, e a casa de Ohio ainda no chamou a ateno de nenhum comprador em potencial.
Devlin no conseguiu responder de imediato, pois toda sua ateno estava concentrada em no se virar para beij-la. A massagem em seus ombros o estava deixando excitado demais.
Parando de mover as mos, Abby o chamou:
	Devlin?
	Podemos trabalhar nos livros a qualquer momento. Diga-me quando estiver disposta.
	Talvez possamos comear a ver isso amanh  noite, depois do jantar.
	Est bem  respondeu ele, com os olhos fechados, comeando a sentir a fora de vontade fraquejar, ao fantasiar sobre o que faria em seguida.
Depois de alguns segundos de silncio, Abby voltou a falar:
	Fui ao mdico hoje.
	Est tudo bem?
	Sim, foi apenas um exame de rotina. Tudo o que ele fez foi medir minha presso e 
ler meus registros da gravidez anterior, que foram enviados da clnica de Ohio.
	E a presso estava boa?
	Sim.
	O mdico no a achou desnutrida?
	Est sugerindo que me acha magra demais?
	No foi o que eu disse.
	Ento preferiria uma esposa gorducha?  provocou Abby.
Mesmo sabendo que deveria manter-se sob controle, Devlin no resistiu  tentao de retribuir  provocao. Observando-a se afastar de lado, entrelaou os dedos atrs da cabea e reclinou o corpo para trs, a fim de encar-la com mais conforto.
	Prefiro uma esposa saudvel, que sabe como cuidar de si mesma e da famlia. Que tenha olhos azuis como o lago Michigan, um corpo capaz de levar qualquer homem  loucura, e um sorriso que faa minha pulsao disparar.
Engolindo em seco, Abby arregalou os olhos e sentou-se na outra cadeira que ela prpria havia colocado no aposento.
	Isso seria exigir demais de qualquer mulher.
	Neste caso, jamais conseguirei substitu-la, Abby  declarou ele, sem tentar esconder o timbre sensual que flua em sua voz.
Ao v-la desviar o olhar, teve certeza de que no era o nico que se sentia atrado naquela relao. De certa forma, aquilo foi reconfortante. Mas tambm desesperador.
O contrato pairava entre eles, como uma muralha de pedras em forma de papel. De repente, Abby ficou de p e comeou a andar pelo escritrio.
	J pensou a respeito de quando ser mais apropriado contar sobre o beb s crianas?
	No pensei muito sobre o assunto  confessou Devlin, assumindo uma postura mais sria.  E voc?
	Acho que devemos dizer logo. J estou comeando a ter problemas para abotoar algumas de minhas calas mais justas.
Olhando para ela com mais ateno, Devlin achou difcil acreditar no que ouviu. O corpo de Abby parecia mais perfeito e desejvel do que nunca.
	Se quiser, podemos falar com eles hoje mesmo.
	Est bem. Alm disso, preciso comprar roupas prprias para a gravidez. Precisarei de um pouco mais de dinheiro emprestado, at que comece a fazer jus a meu salrio.
Ao ouvir aquilo, Devlin precisou se concentrar para no se alterar.
	Eu pagarei pelas roupas. E no adianta me olhar deste jeito. Por acaso ficou grvida sozinha? Ns dois fomos responsveis. Voc carrega a criana na barriga, e eu pago as contas, est bem? Foi a me natureza quem fez as regras, no eu.
A tentativa de amenizar a tenso funcionou, e Abby sorriu com ar frustrado.
	Garanto que a gravidez lhe cai muito melhor do que cairia em mim  falou ele.
	Oh, acha mesmo?  indagou ela, com bom humor.
	Com certeza. Conseguiria se tornar uma bela capa de revista, se quisesse.
Devlin se levantou, caminhando em direo a ela. O olhar que ele recebeu deixou claro que no seria sensato se aproximar mais, mas foi impossvel parar. Quando estavam a poucos centmetros de distncia, tocou o rosto de Abby com a ponta dos dedos, sentindo-lhe a suavidade da pele. Apenas um toque. Era tudo que se permitiria desfrutar, ou perderia o controle. Mas se no fizesse pelo menos aquilo, enlouqueceria.
Contudo, toc-la trouxe-lhe a viva lembrana de cada momento que haviam passado juntos na noite de npcias, e despertou-lhe o desejo com ainda mais intensidade do que antes.
	No creio que essa seja uma boa idia  sussurrou Abby, encarando-o de forma direta.
Aquele pedido afetado confirmou que o controle de ambos estava perto de limite. Mas pensar nas conseqncias possveis levou Devlin a reunir foras suficientes para resistir.
Deixando os braos cair ao lado do corpo, guardou para si a mgoa que sentiu ao ouvi-la suspirar de puro alvio. Pelo visto, teria outra noite de insnia.
Afastando-se alguns centmetros, Abby falou:
	Sinto muito.
	No sinta.
	Parece que est sendo mais difcil do que pensamos, no?
	Sim  murmurou ele, com ar exausto.
	Bem... Amanh comearemos a trabalhar na contabilidade de sua construtora.
Ao v-la se virar e sair apressada do escritrio, uma sensao de vazio o dominou por completo. Foi preciso pensar com clareza nas imagens de seus filhos, abandonados uma segunda vez, para conseguir conter o desejo de segui-la e de persuadi-la a ficar com ele.
Ambos haviam concordado com o que queriam daquele relacionamento. Existia um contrato para provar aquilo.
O que a princpio lhe parecera uma boa idia, tornara-se uma grande armadilha para ele mesmo. Para os dois. Deveriam manter a mente focalizada e os ps no cho. Precisariam fazer aquele casamento dar certo, pelo bem de seus filhos. Ainda assim, Devlin sabia que corria um srio risco de perder o controle, ao tentar sufocar o que sentia por Abby.
CAPITULO V
Com o passar dos dias, o relacionamento entre Abby e Devlin no mudou muito. Ele continuou preocupado em cortar lenha, ocupando-se tambm em fazer uma estante com quatro prateleiras, para Abby guardar todos os livros que levara consigo. A maioria de culinria.
Na noite seguinte ao incio do trabalho na contabilidade da construtora, contaram a novidade s crianas: haveria um sexto Hamilton na famlia.
Paige recebeu a novidade com um efusivo festejo. Demonstrando certeza absoluta de que ganharia uma irmzinha, comeou a sugerir diferentes nomes a cada dia. Mas a predominncia girava em torno de Kelly, em homenagem a Kelly Castner, sua proclamada "melhor amiga do mundo".
A reao de Jason foi previsvel. Estreitando o olhar, com ar de desdm, retirou-se da sala de jantar e foi para seu quarto. Aquela reao no preocupou Devlin, que tinha certeza de que o beb derrubaria as defesas dele, como Paige fizera. A menina no demonstrava a mnima dificuldade em agarrar o irmo mais velho pelo dedo e faz-lo brincar com ela.
A porta do quarto dele vivia fechada para o mundo, mas no para a nova irm. Paige descobrira que Jason era carinhoso, e o beb no tardaria a perceber o mesmo.
A reao de Riley foi a mais estranha de todas. Na verdade, a falta de reao. Das trs crianas, fora ele quem mais se alegrara com a unio das famlias. No se acanhava em seguir Abby pela casa, como se fosse mesmo filho dela. Desde o casamento, no havia mais surgido reclamaes com relao ao comportamento dele na escola.
Se o garoto sentia-se ameaado pela presena do beb, estava sabendo esconder isso muito bem. Se Devlin no conhecesse o prprio filho, pensaria que Riley nem mesmo havia compreendido o que fora dito. Mas s lhe restava esperar para ver.
Como se no bastasse, em meio a tudo aquilo tambm estava tendo de lidar com aquele crescente desejo dentro de si.
O fato de seus pais haverem adorado Abby, e no economizarem elogios  sbia deciso de torn-la sua esposa, era um fator agravante. Fingir na frente deles era ainda mais desgastante do que passar as noites em claro no escritrio. Decidira sair do quarto de Paige, de onde podia escutar os rudos vindos de seu quarto. Temia no resistir  tentao de ir at l qualquer noite, e tomar a esposa nos braos.
Por isso levara a cama de armar para o andar de baixo, onde seria mais seguro ele ficar. Todavia, para sua maior aflio, aos poucos a casa foi tomando um aspecto mais feminino. As janelas ganharam cortinas, e o banheiro de baixo passou at a ter um espelho sobre a pia.
O momento mais difcil, porm, fora quando chegara no quarto para tomar banho, antes do jantar, e descobrira que suas cuecas estavam passadas e dobradas, dentro da gaveta.
Como poderia usar aquelas roupas ntimas com tranqilidade, sabendo que haviam sido manuseadas com todo cuidado por aquelas mos de fada? Seria uma tortura!
Daquele dia em diante, vestir-se nunca mais foi a mesma coisa. Quem imaginaria que viver em um verdadeiro inferno pudesse ser algo to doce?
Na tarde seguinte, exatamente  uma hora e cinqenta e oito minutos, Abby concluiu que havia algo de errado com ela. Flagrara-se sonhando acordada outra vez, quando deveria estar pesquisando seu livro de culinria para preparar um jantar decente para a famlia.
Em condies normais, costumava ser uma pessoa muito concentrada. Mas havia algo, ou melhor, algum que causara uma espcie de pane em seu crebro. Devlin Hamilton.
No era natural que uma mulher grvida ficasse quase obcecada pelo prprio marido. Pelo bem da famlia, precisaria controlar logo suas tendncias errticas e, na maioria das vezes, erticas. Tinha de manter em mente que aquele casamento era um acordo profissional. Nada mais do que um contrato que precisava ser cumprido e respeitado.
De sbito, fechou o livro, considerando que Devlin merecia algo melhor do que ovos mexidos. Subiu at seu quarto e retirou um grande envelope do compartimento lateral de sua mala, no alto do guarda-roupa. Parada no meio do aposento, tamborilou os dedos sobre o papel, revisando mentalmente o plano que vinha elaborando. Conseguiu ento se concentrar naquilo que se tornara sua maior especialidade, por experincia prpria: comportamento adolescente.
Dali, seguiu direto para o quarto de Jason. Sabia bem os valores que moviam os jovens naquela fase, pois jamais tivera quem a ajudasse, a no ser ela prpria. Tratava-se de um perodo em que cada jovem vivia em uma espcie de mundo particular.
Mas Jason tinha um talento do qual a famlia precisava. Era um bom cozinheiro, e pelo que ela percebera das incurses noturnas dele  cozinha, adorava preparar pratos requintados.
Sabendo fazer uso de estratgia e de bom senso, conseguiria fazer com que todos fossem mais felizes. Por sorte, lidaria com um adolescente metdico, que costumava cumprir sua rotina com preciso britnica.
s trs e cinco da tarde, ele entrou em casa, como sempre, e repetiu o ritual de ir at a cozinha, onde se servia de sorvete antes de ir para o quarto.
	Ol, Jason  cumprimentou Abby, ao v-lo passar a seu lado, com o pote de sorvete na mo.
	Ol.
	Como foi seu dia na escola?
	Bom  foi a resposta padro do garoto. Tudo estava ocorrendo dentro da rotina. O subir apressado da escada e o som da porta se fechando mais parecia uma gravao computadorizada. Dando-lhe tempo para tomar o sorvete e jogar a embalagem no lixo, Abby se posicionou em frente ao quarto dele. Precisaria chamar a ateno de Jason, antes que ele colocasse os fones de ouvido e se fechasse para o mundo.
Ao bater  porta, esta foi aberta de imediato. Ele pareceu desconfiado.
 Sim?
	Quero fazer uma troca com voc  Abby props, indo direto ao assunto.
	Uma troca?  Jason estreitou o olhar.
	Isso mesmo.
	E do que se trata?
	Posso entrar?  pediu ela, sabendo que se entrasse teria conseguido sua vitria.
Depois de v-lo hesitar, observou-o dar de ombros e ficar de lado. Ao entrar, ela ignorou a baguna, sabendo que ele devia estar preparando mentalmente uma srie de respostas sarcsticas para qualquer reprimenda que ouvisse quanto  falta de ordem no quarto.
Sem dizer nada, ficou de p no meio do aposento, encarando-o sem demonstrar interesse em dar nenhum sermo. Estava ali para negociar, no para critic-lo.
Estendendo a mo, ofereceu o grande envelope a ele.
	O que  isso?  indagou o rapazinho, sem fazer a menor meno de aceitar o que lhe fora oferecido.
	Nunca saber, a menos que o abra.
Mantendo-se indiferente quando ele pegou o envelope com um gesto hesitante e desconfiado, Abby fingiu no se alterar com o decorrer dos eventos.
Ao retirar do envelope a foto com aproximadamente vinte e cinco centmetros de altura por vinte centmetros de largura, Jason pareceu surpreso demais para dizer qualquer palavra. Sem desviar os olhos da foto, limpou a garganta e engoliu em seco, antes de falar:
	Este  James Dean. Voc tem uma foto autografada por James Dean? Onde a conseguiu? Por acaso o conheceu?
A reverncia no tom de voz de Jason era tudo que Abby precisava saber para definir os passos seguintes a tomar. No se enganara. Desde o dia em que entrara ali, para guardar as roupas limpas pela primeira vez, e vira trs grandes psteres do maior rebelde dos anos cinqenta, tivera certeza de que aquela velha foto seria um timo objeto de barganha.
Ganhando tempo, sentou-se na cadeira diante da escrivaninha e s ento respondeu:
	Eu bem que gostaria, mas ele j havia morrido quando eu nasci.  Suspirou.  Uma pena...
	Como sabe que  a assinatura autntica dele?
	Um de meus pais adotivos foi figurante no penltimo filme de James Dean. Eles contracenaram.
	Incrvel...
	Sim.
O rapazinho engoliu em seco e tocou a borda da foto, com grande respeito.
	Por que nunca a colocou em uma moldura? Mesmo no gostando de falar sobre seu passado,
Abby sabia que Jason no a respeitaria se no ouvisse a verdade.
	Quando se  uma criana adotiva temporria, nem sempre  possvel manter o que  seu. E difcil ter certeza do que vai restar de seus pertences, quando se  removido de um lar para o outro. Eu no queria que ningum soubesse sobre esta foto. Como
o envelope nunca chamou muito a ateno das pessoas com quem tive de viver, foi o melhor lugar para guard-la. Toda vez que queria v-la, era s me fechar em algum lugar e olh-la.
O garoto a fitou por um momento, sem demonstrar animosidade ou precauo pela primeira vez, desde que haviam se conhecido.
	No teve uma famlia de verdade?  perguntou ele.
	Meus pais morreram quando eu era muito pequena.
	Deve ter sido difcil.
	Quando no se pode fazer nada, no h muito do que reclamar.
Ento, voltando a parecer desconfiado, Jason estreitou o olhar e perguntou:
	Por que est dando a foto para mim?
	Pelo que entendi, voc  um bom cozinheiro  falou Abby, tentando no parecer ansiosa.
	Isso no  nada demais.
	Para algum que s sabe preparar ovos mexidos,  muito.
Por uma frao de segundo, os lbios dele se curvaram em um sorriso. Ento a expresso de indiferena retornou.
	Ovos so timos.
	Para galinhas  desdenhou ela.
O brilho de divertimento no olhar do garoto a fez lembrar de Devlin.
	Cobras tambm nascem de ovos...
Abby no precisou fingir que sentiu um arrepio.
	Oh, nem me lembre.
Ele comeou a rir, mas tentou disfarar, cobrindo a boca com a mo e fingindo tossir.
	E ento?  indagou Abby.
	Ento o qu?
	Eu lhe dou a foto e voc me orienta na cozinha. Jason a encarou com ar ctico.
	Por acaso nunca a ensinaram a cozinhar?
. Vrias pessoas tentaram, mas nenhum curso conseguiu me transformar em uma artista da culinria.
	Vai servir ovos outra vez no jantar de hoje  noite?
	Gosta deles mexidos, com molho agridoce? Abby o viu ficar instantaneamente plido, antes de responder:
	Oh, cuide apenas de arrumar a mesa, e deixe que eu cozinho, sim?
Cuidando para que o enteado no visse a expresso de satisfao em seu rosto, Abby se levantou e comeou a andar em direo  porta, dizendo:
	Obrigada, Jason.
	Ei, no precisa me dar a foto  falou o garoto, interrompendo-a e estendendo o envelope em sua direo.
	Est me dizendo que no a quer? Jason deu de ombros.
	Gosto de cozinhar. No seria um acordo muito justo. No precisa se desfazer de sua foto.
A voz dele dizia uma coisa, seus olhos revelavam outra. A parte mais difcil para Abby foi resistir  tentao de atravessar o quarto e abra-lo com carinho, o que estragaria tudo o que ela havia conquistado. No poderia ousar nada alm do que conseguira. Precisou se conter e seguir o plano original.
No ntimo, sabia que Jason estava lhe dando o mais precioso dos bens: confiana. Ficara evidente que o garoto queria a foto, mas mesmo assim ele abrira mo daquilo, por se preocupar com ela.
Contendo as lgrimas que marejaram seus olhos, entregou-lhe o envelope de volta.
	No importa.  sua, se a quiser. No preciso mais dela.
	Por que no?
	Esta foto era tudo o que eu tinha quando estava com sua idade. Mas agora tenho voc, Riley, seu pai e Paige. Isto  o que eu sempre quis. Se a cozinha ficar por sua conta, todos ficaro mais felizes. E  s a felicidade de minha famlia que me importa agora.
Sem esperar por uma resposta, Abby saiu do quarto logo em seguida. No queria abusar da sorte.
CAPITULO VI
Infelizmente, a sensao de satisfao de Abby no durou muito tempo. No dia seguinte, quando estava terminando de lavar as roupas de toda a famlia, ouviu o telefone tocar e foi atend-lo.
	Al?
	Sra. Hamilton?
Ouvir seu nome de casada a fez hesitar um instante.
	Sim, sou a Sra. Hamilton.
	Aqui  a Sra. Branson, da escola de Humphrey. Sou a professora de Riley. Tentei chamar seu marido pelo pager h uma hora, mas ele no retornou minha chamada.
	H algum problema?  perguntou Abby, apertando o aparelho com fora.
A demora em obter uma resposta falou por si mesma.
	Riley e outro garoto brigaram na escola.  O remorso no tom de voz da professora foi perceptvel.  Temos uma regra que determina que, quando algo assim acontece, um dos pais precisa vir at a escola e levar a criana para casa. Como no  a primeira infrao cometida pelo garoto de vocs, o diretor est pensando em suspend-lo por dois dias.
Antes mesmo de acabar de ouvir a professora, Abby j estava em movimento, pegando a bolsa.
	Chegarei a o mais depressa possvel.
Ao longo de todo o trajeto de volta para casa, Riley no disse nenhuma palavra. Sentado no banco de trs, ficou apenas olhando a paisagem. Embora estivesse um pouco mais despenteado do que o habitual, no parecia afetado por nada.
E era justamente aquela quietude que deixava Abby preocupada. O garoto costumava falar tanto, e to depressa, que mal parava para respirar entre uma palavra e outra. Alm disso, ele no a encarara quando ela fora apanh-lo na escola. Outro hbito que o menino nunca tivera.
Assim que entraram em casa, ela deu uma boa olhada no rosto dele, notando as marcas na lateral direita de sua face.
	Acho que vai ficar com um hematoma ao redor deste olho  avisou, sem demonstrar o menor ar de repreenso.  Por que no vai se lavar, enquanto preparo uma compressa de gelo para seu machucado?
Riley a fitou nos olhos por um momento e abaixou a cabea.
	No est doendo. Acho melhor ir me deitar.
	Est se. sentindo doente?
	No.
	Ento v se lavar e volte aqui para conversarmos.
Depois de demorar muito mais do que o necessrio, o garoto voltou para a sala e a chamou, apontando para a escada.
	Podemos ir conversar no meu quarto?
	Claro  concordou Abby. Seguindo-o at o andar de cima e sentando-se ao lado dele na cama, prosseguiu:  Quer me contar o que aconteceu? 0 menino deu de ombros.
	Eu e Bobby no somos mais amigos. Bobby Carmichael era o melhor amigo de Riley.
	Por que no? Vocs discutiram?
Riley pegou uma luva de beisebol e comeou a mexer nos cordes.
	Ele disse algo de que no gostei.
	Quer falar sobre isso?
	No.
O garoto parecia muito mais triste do que um menino de seis anos deveria ficar. Seria aquilo parte da alterao no comportamento que ele apresentara desde que ficara sabendo sobre o beb? Nos dias anteriores, tivera momentos de silncio muito incomuns. Depois de uma boa gargalhada, de repente, ele parecia ficar de mau humor. Abby sentiu-se na obrigao de fazer algo para aliviar o sofrimento de Riley.
	Pensei que Bobby fosse seu melhor amigo.
	No  mais.
	Por qu?
	Porque ele  idiota!  Riley largou a luva, que caiu no cho.
	Acho que nem mesmo voc acredita no que disse, no ?  indagou Abby.
Percebendo a mgoa nas palavras dele, pegou a luva cada e a colocou sobre a mesinha-de-cabeceira.
Ao ouvi-lo suspirar e fazer uma careta, temeu que o menino fosse se fechar e guardar toda aquela tristeza dentro de si. Ento algo aconteceu, e a barreira foi rompida. Uma lgrima escorreu pelo rostinho sardento, enquanto um soluo antecedia sua fala.
	Bobby disse que voc no  minha me de verdade. Falou que voc no passa de uma me de mentira.
Enxugando uma segunda lgrima que lhe escorria pela face, Abby tocou-lhe o queixo com delicadeza e o fez levantar o rosto para encar-la.
	No creio que o que ele pensa seja assim to importante. S importa o que voc acha.
Riley no hesitou.
	Minha me de verdade no me quis.
A verdade daquela afirmao no dava muita margem para argumentao, mas algo precisava ser feito para aliviar a dor do menino.
	Sua me no teria lhe dado  luz se no o quisesse, Riley.
Virando o rosto para escapar do contato da mo dela, o menino cerrou os punhos.
	Por que ela nunca me telefonou nem veio nos visitar?
Abby se fizera a mesma pergunta muitas vezes. Parecia incrvel que as famlias que a adotaram temporariamente a esquecessem to depressa aps sua partida. Por isso jurara que Paige nunca sofreria aquele tipo de abandono, antes mesmo de ela nascer. Riley merecia o mesmo voto de dedicao de sua parte. Na verdade, ele precisava de ajuda.
	No sei o que levou sua me a partir. Talvez algum dia possa perguntar isso a ela. Tudo o que se sabe  que, antes de se separar de Devlin, sua me se certificou de que voc e Jason tives sem um bom lar e um pai maravilhoso para cuidar de vocs. Isso  muito mais do que algumas crianas tm.
Fitando-a diretamente nos olhos, o garoto engoliu em seco. Parecia estar passando por algum tipo de conflito.
	Ela nunca me mandou um presente de aniversrio.
Abby se esforou para conter a mgoa que cultivara por uma pessoa que nem sequer conhecia. Mgoa era uma fora destrutiva, enquanto o amor tinha o poder de curar e de construir.
	Quando  seu aniversrio?
	Cinco de novembro.
	Costuma fazer algo especial na data?
Um esboo de sorriso se insinuou nos lbios dele.
	No ano passado, papai deixou que eu convidasse todos meus amigos para fazermos uma festa da pizza.
	Aqui mesmo?
	Sim. Mas Willie Gross quebrou a janela do banheiro, e Lionel derramou suco no sof inteiro. Papai disse que, de agora em diante, o pessoal da pizzaria  que cuidar da sujeira.
	Seu pai  muito especial.
	Eu sei.
	Ele deixou que tivesse sua festa, mesmo no gostando de ter de limpar e de arrumar a casa depois. No  todo mundo que tem um pai assim.
	Isso  verdade! O pai de Fred  um mal-humorado. Est sempre gritando e reclamando de tudo e de todos.
Abby no o interrompeu, deixando-o tirar as prprias concluses. Embora aquilo no fosse acabar com os questionamentos dele sobre a me, pelo menos fizera-o se alegrar sem precisar extravasar a frustrao batendo em Bobby.
Riley pegou a luva de beisebol outra vez.
	E Fred nem tem um irmo mais velho, como eu.
	Foi Jason quem lhe deu esta luva?
	Sim, no meu ltimo aniversrio. E melhor do que a de Bobby.
	Ele tambm tem um irmo?
	Sim, mas  menor do que ns. Bobby disse que o caula  um incmodo, e que vive mexendo nas coisas dele.
	Aposto que ele gostaria de ter um irmo mais velho, como o seu, para ensin-lo a jogar.
	Acho que sim. Jason sabe ser bonzinho, quando quer.  O garoto inclinou a cabea, fitando-a com um ar pensativo, j sem tristeza.  Tenho um pai, um irmo, uma madrasta e uma meia-irm. Isso  bastante, no?
	Sim,   confirmou Abby, fazendo uma pausa antes de completar:  E em breve ter um irmozinho ou uma irmzinha. Mais uma pessoa para amar.
	Sim  murmurou ele, voltando a franzir o cenho e a encarar a luva.
	E este beb ter sorte de t-lo como irmo mais velho.
	Ter?
	Claro. Ser voc quem ir ensin-lo a jogar beisebol. Irmos mais velhos so muito importantes.
Riley no pareceu muito convencido.
	Seu irmo mais velho tambm a ensinou a jogar?
	No tive nenhum irmo.
	Ningum?
	Ningum.
	Ento no precisou dividir seus brinquedos, seu pai e sua me com mais ningum?  indagou o garoto, com um tom claro de admirao e um leve ar de inveja.
	Tambm no tive pai nem me.
0 ar de inveja foi logo substitudo por uma expresso preocupada.
	Ningum lhe dava presentes, nem fazia festa no dia de seu aniversrio?
	Nunca tive uma festa, mas de vez em quando algum me dava algum presente, claro. E voc, mocinho? O vai querer fazer em sua prxima festa? Afinal, estar fazendo sete anos!
O garoto deu de ombros.
	No sei. Talvez levar o pessoal na pizzaria do Benny, em vez de faz-lo trazer as pizzas e deixar voc e papai cheios de servio.
	Bem, ento pense no que quer fazer e depois me diga, antes que a grande data chegue.
	Certo  falou Riley, voltando a ficar srio. Abby o observou se levantar, caminhar pelo quarto
e mexer em um soldadinho de plstico. Em seguida, folheou um livro sem prestar a menor ateno ao contedo, antes de voltar a encar-la com um certo ar de cautela.
	O que foi, Riley?
	Gostaria de saber de uma coisa... Posso cham-la de me? S de vez em quando. No precisa ser sempre. Acho que vai ser mais fcil.
Esforando-se para conter as lgrimas, Abby conseguiu sorrir ao responder:
	Ficarei muito feliz se me chamar de me todas as vezes que sentir vontade. Ou sempre, se quiser.
De fato, o sorriso de Riley a fez sentir-se a pessoa mais feliz do mundo.
	Neste caso, acho que vou fazer isso muitas vezes... mame.
Levantando-se, Abby se aproximou e abraou-o com carinho, por um breve momento. Antes que pudesse deix-lo embaraado, saiu depressa. Mas parou  porta e se voltou para ele. Lanando-lhe um olhar maternal, manteve o dedo em riste.
	E nada mais de brigas na escola, estamos entendidos, mocinho?
	Sim, mame!  concordou o garoto, com um sorriso satisfeito.
Devlin se afastou um pouco pelo corredor, para que Abby e Riley no se sentissem espionados. Demorara, mas ele recebera a mensagem da escola. Ficara sabendo que o garoto havia sido pego pela Sra. Hamilton, e que fora direto para casa. Bastara seguir o som das vozes dos dois para chegar at o quarto de Riley.
Ao ouvir a conversa que estavam tendo, sentiu desaparecer o desejo de repreender o filho pelo mau comportamento. Jamais imaginara que o garoto estivesse questionando os motivos da partida da me, a ponto de ter problemas na escola.
Ao contornar a curva do corredor que levava  escada, Abby quase esbarrou nele.
	No percebi que estava em casa.
	Achei melhor no interromper  justificou Devlin, desconcertado.
	Ento estava ouvindo?
	Sim. Acho que deveria ter percebido que a questo girava em torno da me dele.
Ambos chegaram  sala de estar e se sentaram no sof. Mas mantiveram uma distncia segura entre eles.
	Na verdade, acho que nem mesmo Riley tinha idia do que se tratava. S sabia que havia algo errado, e que o incomodava.
	Mas, com sua ajuda, ele conseguiu perceber tudo. - No  falou Abby.  O problema  a chegada do beb. Riley estava apenas com medo de ser esquecido e ignorado. Devlin franziu o cenho.
	Era disso que estavam falando?
Sorrindo, ela se levantou e contornou o sof. Pousando as mos sobre os ombros dele, comeou a massage-los. No mesmo instante, Devlin ficou tenso e alerta. Chegou at mesmo a esquecer de respirar por um instante.
	Isso o incomoda?  perguntou Abby, parando o movimento.
"Claro que sim", pensou ele. "Como poderei resistir  tentao de me virar e de pux-la para meus braos?"
	No,  muito bom. Fui pego de surpresa, s isso. Aps um instante de hesitao, a massagem prosseguiu.
	Qual o grau de contato que Riley teve com a me?
	Nenhum.
	Oh!
Devlin comeou a perceber que a esposa era capaz de ver mais detalhes do que ele jamais conseguira.
	Obrigado por haver falado com ele. E por no ter inventado desculpas nem haver destrudo qualquer iluso dele sobre Linda. Ela no merece nenhum prmio por comportamento maternal, mas quem sabe um dia...  A voz dele desapareceu.
	Algum dia sua ex-mulher pode se arrepender por no haver conhecido os prprios filhos. Os garotos teriam de superar muitas mgoas antes de aceit-la, mas isso seria bom para todos. Era o que ia dizer?
Sentindo-se cada vez mais relaxado sob o toque daqueles dedos hbeis, Devlin no conseguiu conter as palavras que lhe vieram  boca.
	Algum j lhe disse que  uma pessoa muito inteligente e especial, Abby Hamilton?
Devlin pde senti-la estremecer.
	No me acho mais inteligente do que ningum, mas aprendi muitas lies ao longo da vida.
	Voc sabe o que  ser uma criana sem pais. Ningum mais saberia como alcanar Riley, para lhe transmitir segurana e carinho, como acabou de fazer.
Agindo por puro instinto, e esquecendo-se de toda a precauo que deveria tomar, Devlin se virou e puxou-a para seu colo. Abby no tentou resistir.
Os lindos olhos azuis fitaram os seus de uma maneira profunda e significativa. Sabia que seria impossvel ocultar o desejo que sentia por ela. Acariciando-lhe o rosto perfeito, sentiu o calor daquela pele macia sob seus dedos. Ao v-la umedecer os lbios, s no se curvou para beij-la porque ela comeou a falar:
	No precisa me agradecer. Isso faz parte da minha tarefa.
Devlin balanou a cabea negativamente.
	Do modo como fez? No. Seria mais fcil deixar Riley passar uma semana a po e gua.
Ela sorriu.
	Aposto que ele iria preferir essa dieta, a ter de comer ovos mexidos todas as noites. Ignorando a tentativa dela de quebrar o encanto com aquela brincadeira, Devlin prosseguiu:
	Ou poderia t-lo deixado l, de castigo, at que enxergasse o erro que cometeu. No precisava ter passado tanto tempo ouvindo as explicaes de um garoto de seis anos de idade. Seria mais fcil deix-lo sozinho e fechar a porta.
Abby mordeu o lbio de forma inconsciente.
	Isso no resolveria nada. Riley continuaria magoado, e voltaria a descarregar a frustrao por meios violentos  disse.
Vendo a marca que os dentes dela deixaram no lbios rosado, Devlin o massageou com a ponta do dedo.
	Como v, poupou-nos de muita dor e ressentimentos  afirmou ele.
	Estou aqui para tornar sua vida mais fcil. O tom melodioso daquela voz suave soou-lhe como um canto de sereia, capaz de encant-lo.
	Tornar minha vida mais fcil...  repetiu Devlin. Na verdade, no era bem aquilo o que ela vinha fazendo. At o tom de azul dos olhos dela o estava deixando intrigado. Tudo em Abby o fascinava.
	Papai?
A voz de Riley, vinda da escada, interrompeu seus pensamentos, mas no o fez perder o contato visual com aquele olhar fascinante. Nem mesmo quando respondeu ao chamado do garoto.
	Voc no deveria estar estudando?
	Eles no do muita lio de casa no primeiro ano.
	Neste caso, v encontrar algo para fazer  disse Devlin, gesticulando para a porta, sem deixar de fitar o rosto de Abby.
	Est bem!  concordou o menino, saindo em disparada.
	No acha que ele pareceu animado demais com a idia de ir procurar o que fazer?  indagou Abby, enrubescida.
	No deveramos ficar gratos por isso?
	Talvez.
	Abby?  Dessa vez a voz de Riley soou bem mais prxima.
	Sim?  indagou ela, levantando a cabea para encarar o garoto, por sobre o ombro de Devlin.    
	Temos bananas em casa?
	Esto na prateleira do meio do armrio com portas de trelia. Quer que eu pegue uma para voc?
	Posso fazer isso  garantiu o garoto, correndo para a cozinha.
Assim que os dois voltaram a ficar sozinhos, Abby encarou o marido com um ar preocupado.
	No acha que deveramos nos certificar de que ele no vai se cortar?
	Fique tranqila. Escondi todas as facas afiadas.
	Hum... Acho que estou diante de um pai muito esperto, Devlin Hamilton.
	Ora, eu me casei com voc, no foi?
O tom sensual de provocao a fez estremecer. Por mais que ela tentasse parecer indiferente  proximidade entre eles, Abby no conseguiu engan-lo. Sabia que ela o desejava tanto quanto ele prprio a desejava.
Dentro de si, Devlin enfrentava uma verdadeira batalha pelo controle de seus instintos. Lembrava-se muito bem do que acontecera na ltima vez em que sucumbira a eles. No poderia se dar ao luxo de cometer outro deslize. Precisava se manter fiel ao acordo.
Concluiu que a nica forma de acabar com aquele desejo seria beij-la. Um nico beijo e seu tormento teria um fim. De fato, no era uma questo de opo. Estava se sentindo como um andarilho do deserto, caminhando havia dias sob o juramento de no beber do osis que tinha diante de si. Se no o fizesse ao menos uma vez, iria morrer. No seu caso, poderia enlouquecer.
Convencendo-se de que a lgica estava do seu lado, aproximou-se devagar, tendo em mente que no iria querer mais do que um beijo.
	Abby...  murmurou Devlin, em um tom grave e profundo.
	Devlin, por favor...  sussurrou ela, com ar de splica.
Os lbios dele cobriram os dela com delicadeza. Devlin sentiu as mos suaves tocarem seu peito com a inteno de empurr-lo, mas isso no aconteceu. O breve esforo de resistncia no durara um segundo. Pelo contrrio, transformara-se em algo diferente, pois Abby acabou puxando-o com fora para si.
Sua memria e seus sonhos no faziam justia  maravilhosa sensao que era t-la em seus braos. Como pudera resistir quilo por tanto tempo? Por que vinha tentando faz-lo? Tudo parecia haver perdido o sentido.
A chama do desejo se incendiou dentro dele, levando-o a perceber que havia muito a ser consertado. A comear pelo relacionamento dos dois. A vida fazia mais sentido quando tinha Abby junto de si. Na verdade, nada mais importava.
Demorou algum tempo para que ele percebesse que as mos dela o estavam empurrando outra vez. Afastando os lbios dos dele, Abby interrompeu o beijo de repente.
	Espere!  pediu ela, ofegante.  No deveramos parar para respirar?
	No, se no precisarmos...  disse Devlin, em um murmrio sensual, enquanto abaixava o rosto em direo ao dela.
Porm, a voz de Riley o levou a se conter.
	Papai, posso usar seu barbeador para raspar minha cabea?
CAPITULO VII
A
inda abalado pelo beijo que dera em Abby, Devlin demorou para entender as palavras do filho caula.
Jason, que aparentemente chegara da escola sem que nenhum deles notasse, seguiu Riley at a sala.
	Por que quer raspar a cabea, nanico? O menino deu de ombros.
	Ora, voc me disse que todas as "gatinhas" so apaixonadas pelo Michael Jordan porque ele raspou a cabea. Se eu fizer o mesmo, elas vo ficar louquinhas por mim! O que acha?  
	Acho que vai ficar ridculo  respondeu Jason. Devlin notou que Abby estava se contendo para no cair na gargalhada. Ento fitou o filho mais velho.
	"Gatinhas"?
	E apenas a gria do momento, pai. No tenho culpa se este fedelho fica ouvindo minhas conversas  resmungou o garoto, assumindo uma postura defensiva.
Foi difcil para Devlin definir o que estava sendo mais difcil: recuperar-se do beijo, ou digerir a informao de que seu caula, de apenas seis anos de idade, estava querendo conquistar "gatinhas".
	No h desculpa para se referir s mulheres como "gatinhas".
	Mas no tive nenhuma inteno de ofender  disse Jason, saindo antes de receber um sermo.
Riley os olhou com ar incerto.
	Isso quer dizer que no posso raspar a cabea?
	Exato. Tambm significa que vai ter de varrer a cozinha e a lavanderia, alm de lavar os pratos do jantar hoje  noite, por haver sido mandado para casa mais cedo outra vez, por mau comportamento.
	Mas, papai...
	E quanto mais tempo demorar para comear a fazer suas tarefas, mais longa ficar a lista de castigos.
Riley se calou e saiu da sala sem esperar mais nem um segundo.
Mal o garoto se retirou, e Abby deixou fluir a risada que vinha contendo. Riu at que lgrimas lhe escorressem dos olhos. Devlin retirou um leno do bolso e o entregou a ela, dizendo:
	D para acreditar que esse garoto veio ao mundo sem uma etiqueta de advertncia, classificando-o como "imprprio para menores"?
	Felizmente, ningum regulamentou uma norma com relao a isso, ou muitos andariam "etiquetados" por a. Ele  apenas um garoto normal e saudvel, expressando a curiosidade inerente a seus seis anos de idade.
	 mesmo? No me lembro de Jason haver sido to precoce.
	Talvez ele fosse apenas mais discreto, ou conseguisse deduzir as coisas com mais facilidade.
	Talvez.
	Riley est apenas curioso a respeito de relacionamentos. Isso no  ruim nem errado  explicou Abby, levantando-se do colo dele.  Preferiria que ele fosse diferente?
	Nem por um momento.
	Foi o que pensei.
Depois que a viu deixar a sala, no foi exatamente a precocidade de seu caula que deixou Devlin abalado, mas a onda de desejo que o dominou. Obrigou-se a ficar sentado no sof por mais meia hora, para no violar o contrato que jurara respeitar, e que j estava mais do que arrependido de haver assinado.
Abby fechou a porta atrs de si ao entrar no escritrio de Devlin. Sentia-se como se houvesse acabado de escapar de um acesso de instintos primitivos. Todavia no estava pensando nele, mas em si mesma. Abigail O'Reilly Hamilton.
Sentia-se como se estivesse sendo guiada por instintos que desconhecia ter at ento." Bastara receber um olhar mais ousado de Devlin e j se deixara levar pelo calor daqueles braos fortes, praticamente roubando-lhe um beijo. Que tipo de julgamento ele iria fazer a respeito dela depois daquilo?
De repente, veio-lhe  mente a imagem satrica de uma cena de Tarz e Jane, s que s avessas. Abby sentiu-se a prpria "rainha das selvas".
Fechando os olhos, massageou a testa devagar. Como poderia estar pensando em piadas em um momento como aquele?
Sempre se mantivera no controle de suas emoes, e sabia que no poderia confiar nas iluses nascidas daquele casamento de fachada. A nica explicao plausvel era a de que seus hormnios deveriam mesmo estar em desequilbrio.
Mulheres grvidas costumavam experimentar sensaes estranhas, geralmente desejos incontrolveis por certos alimentos. Mas, em seu caso, ainda no havia chegado a poca de cometer assaltos noturnos  geladeira.
At o momento, seu nico desejo era ser amada por um moreno, alto, com lindos olhos verdes e que, para complicar a situao, era seu marido. No fazia sentido! J havia sido casada antes, e deveria ser mais imune  presena dele. Deveria haver algo errado. Jamais ouvira falar de uma mulher que estivesse sendo atormentada por um desejo desenfreado pelo prprio marido.
Seria algum distrbio causado pela gua ou pelo clima de Wiscosin? Talvez estivesse usando sutis apertados demais, e a circulao de sangue at seu crebro estivesse sendo prejudicada... No, aquilo tambm no parecia vivel.
Talvez devesse procurar um mdico. Mas como descrever seus sintomas? E o que poderia ser feito? No deveria existir nenhum inibidor de desejo sexual. As pessoas costumavam procurar estimulantes para isso, no redutores.
Alm do mais, depois daquele enjo matinal, no dia em que chegara a casa, no tivera nenhum outro problema com a gravidez. Exceto pelo detalhe de se flagrar observando Devlin a todo instante. Na ausncia dele, ia at o escritrio e sentia o delicioso perfume masculino que ele costumava usar. Pelo menos aquilo abrandava um pouco seu desejo.
Seria possvel que Devlin suspeitasse do que se passava com ela? Era provvel que sim, pois ele passava todos os finais de tarde estocando lenha e evitando ficar em casa.
Devlin deveria estar temendo alguma sbita perda de controle. Talvez estivesse- evidente que sua situao fosse crtica, e que o controle estava prestes a ser perdido a qualquer momento.
Mas Abby sabia que deveria resistir quelas tentaes e se manter calma. No havia dvidas a respeito do que era esperado dela. Haviam deixado tudo muito claro no contrato. A assinatura de ambos estava l, e seria arriscado deixar de cumprir o acordo.
Precisava se ocupar com algo. Foi at o armrio de arquivos e abriu uma gaveta. Talvez trabalhar com algo que exigisse bastante raciocnio resolvesse seu problema imediato, ajudando-a a esquecer aquele calor insistente pelo corpo. Teria de apagar aquele beijo da memria. Tinha de se preocupar com Paige, que se tornara a maior prioridade em sua vida. Alm disso, havia Riley, que queria cham-la de me, e Jason, que embora quisesse demonstrar que no precisava dela, era o mais carente de todos.
	Abby?
Apesar de no haver escutado a porta se abrir, reconheceu de imediato o tom de preocupao na voz do marido.
	 a gravidez  disse ela, antes que Devlin tivesse a oportunidade de se aproximar.
	Gravidez?
	Sim. So meus hormnios. Eles esto fora de controle.  Ao v-lo arquear as sobrancelhas, demonstrando mais preocupao, Abby tornou-se apreensiva, o que a levou a continuar falando:  Algumas mulheres desejam picles com sorvete no meio da noite. Outras querem peixe cru com limo e acar. Eu, por outro lado, desejo...
Interrompendo-se de repente, sentiu o calor do prprio rosto, percebendo que estava enrubescida. O olhar bem-humorado e malicioso de Devlin a deixou desconcertada e a fez se calar.
	O que estava dizendo?  incentivou ele.
Ao perceber que estava se fazendo de tola, Abby levantou o queixo e o encarou com ar de desafio.
	Desculpe-me. Eu estava apenas pensando em voz alta. Precisa de algo?
	Hum... Rebecca Castner telefonou e nos convidou para jogarmos e conversarmos um pouco na sexta-feira  noite. O que acha?
	E as crianas?
	Minha me se ofereceu para ficar com elas no final de semana. Meus pais vm praticamente implorando pela oportunidade de apresentarem a nova neta aos amigos.  a nica chance que eles tm de mimar as crianas quando no estamos olhando.
	E depois lidamos com as conseqncias  salientou Abby, com um suspiro.  Mas j vou avisando que no sou boa jogadora.
	Tambm no jogo bem  afirmou ele, sorrindo com um charme que a deixou zonza.  O que no deixa de ser um consolo para ns dois.
Ao v-lo deixar a sala, Abby suspirou novamente. No sabia at quando agentaria conter todo aquele desejo.
Mais tarde, naquela noite, Devlin estava parado em frente  tela da enorme televiso da sala de estar, sem conseguir prestar ateno ao jogo de basquete.
Abby estivera fechada no escritrio por mais de duas horas, trabalhando no computador recm-instalado, passando os dados dos papis para o sistema.
Tentara fazer algo para ajud-la, mas no conseguira se concentrar na presena dela. Sentir aquele perfume suave o levava a se voltar inconscientemente na direo dela, para fitar seus traos delicados e suas curvas perfeitas. Precisara usar todo seu autocontrole para resistir  urgncia de atravessar o escritrio e tom-la nos braos. Por isso, a melhor opo fora sair de l.
As lembranas da noite de npcias se tornavam mais ntidas e sedutoras a cada dia. E, para completar, os dois haviam trocado um beijo naquela tarde.
Como poderia viver na mesma casa com Abby sem enlouquecer? Depois que ela subisse, teria de armar a cama e dormir naquele mesmo escritrio, todo marcado pela presena dela.
	Papai?
Pelo tom impaciente na voz de Jason, Devlin deduziu que no era a primeira nem a segunda vez que estava sendo requisitado. Ajeitando-se no sof, passou a mo pelos cabelos.
	Desculpe-me. Acho que estava perdido em pensamentos. Quer assistir a outro canal na televiso? O jogo est sem graa.
	E o time da casa toma a liderana por apenas um ponto, a menos de um segundo do final. O tcnico adversrio pede tempo...  dizia o locutor.
O adolescente estreitou o olhar e encarou o pai com ar ctico.
	Est se sentindo bem, papai?
	Sim, claro  disse Devlin, desconcertado, desligando a televiso e colocando o controle remoto na mesa de centro.  E ento? Do que se trata?
	Acho que precisamos conversar.
Diante daquela repentina afirmao do filho, seguida por um absoluto silncio, Devlin se sentiu desorientado, sem saber por onde comear, j que no tinha idia do assunto. Mas deveria tentar.
	Est com algum problema na escola?
	No.
	Algo de errado com seus amigos?
	Nada.
Jason no era do tipo que se prontificava a conversar, e se no se tratava de nenhum daqueles itens primordiais para um adolescente, s restava um tpico.
	Quer falar sobre garotas?
	Garotas?  questionou o rapazinho, franzindo o cenho.
	Sim. Sei como , quando se est na sua idade. Os rapazes tm certas dvidas quanto ... Bem. Pode me perguntar qualquer coisa.
	No quero falar sobre sexo, papai.
	No?  Devlin suspirou aliviado.
	J aprendi muito sobre isso na escola, anos atrs.
	Ento do que se trata?
	Por que voc e Abby no esto dormindo juntos?
Aquela era a ltima pergunta que Devlin esperaria ouvir do prprio filho. Demorou alguns segundos para se recuperar e conseguir dizer algo.
	Paige ainda no est pronta para se mudar para o quarto dela.
Jason arregalou os olhos, e ento os estreitou, fitando o pai com ateno.
	Faz quase uma semana que ela comeou a dormir l, sozinha, e est adorando.
Devlin no sabia daquilo. No percebera nem fora informado a respeito.
	S queramos nos certificar de que ela no teria problemas ao longo dos primeiros- dias, e continua mos como estvamos.
Pela expresso do garoto, ficou bvio que a desculpa no o convencera.
	No h nada errado, h? Abby no  uma grande cozinheira, mas em tudo mais,  tima. Por acaso pretende se separar, ou expuls-la de casa por alguma razo que desconheo?
	Do que est falando?
	Pai, Abby precisa de ns  afirmou Jason.
	Por que est dizendo isso?
	Ela abriu mo de uma foto original do James Dean e a ofereceu a mim. Disse que agora que nos tem como famlia no precisa mais da foto.
	E est com medo de que ela queira a foto de volta, caso venha a partir? E isso?
Jason fez uma careta de impacincia.
	Aquilo  apenas uma foto. Quero dizer, para mim  s isso. Mas era tudo o que ela tinha quando adolescente. Quando mame nos deixou, continuamos tendo um ao outro. Eu, voc e Riley. Abby no tinha ningum quando estava com a minha idade, apenas a fotografia de James Dean. Claro que agora ela tem Paige junto dela, mas ficar ouvindo-a falar da Barbie o dia inteiro deve ser bastante cansativo, entende?
	Est me dizendo que quer que ela fique?
O garoto deu de ombros, fingindo uma indiferena que seus olhos negavam.
	Para mim, no importa muito. Em poucos anos, estarei saindo de casa, indo para a universidade.
Mas acho que Riley precisa de algum para ficar ao lado dele enquanto voc est trabalhando.
	E mesmo?
	No posso cuidar dele para sempre.
	Acha que  isso que espero de voc?  perguntou Devlin.
	No  uma tarefa difcil. O nanico  bonzinho. Assim como Paige. Ela tambm precisa de um irmo por perto de vez em quando, para ajud-la a amarrar os sapatinhos e tudo mais.
	E o beb?
Jason fingiu estar analisando o prprio sapato, antes de responder.
	Acho que vai chorar muito.
	Os recm-nascidos tm esse hbito.
	Bem, ento vou precisar de novos fones de ouvido  falou Jason.  Isso dever facilitar as coisas para mim. Mas no ser to ruim assim.
	E provvel que no  confirmou Devlin, evitando encarar o filho, para que ele no notasse o divertimento em seu olhar.
Sempre soubera que, algum dia, algo assim iria acontecer, mas no pensara que pudesse ser to cedo. Como Abby havia conseguido romper as barreiras do garoto to depressa, a ponto de lev-lo a se preocupar em proteg-la? O que quer que houvesse ocorrido, fora muito eficiente.
Depois de aliviar o peso na conscincia, intercedendo da nica maneira que lhe era possvel, Jason no se demorou na sala e voltou para o quarto.
Devlin se tornou pensativo. Era impossvel no admirar sua esposa. Naquele momento, tudo o que queria era voltar no tempo e evitar que aquele contrato fosse assinado. Deveria ter agido normalmente, se aproximado dela da maneira tradicional. Sua tentativa de tomar as rdeas do destino acabara fadando ambos ao sofrimento.
Sim, porque a atrao que sentia no era unilateral. Estava mais do que evidente que ele a afetava tanto quanto era afetado por ela. Mas havia uma barreira a ser vencida. Desde criana, Abby aprendera a no confiar em ningum. Depois casara-se com um homem que a deixara sem nenhuma segurana e cheia de dvidas. Aquilo servira apenas para reforar a lio de desconfiana que ela trazia consigo, aumentando sua mgoa.
Devlin sabia que suas chances de vencer aquelas barreiras eram poucas, mas precisaria tentar.
Desejava Abby de corpo e alma, e queria t-la como uma esposa de verdade. CAPITULO VIII
Quando a sexta-feira chegou, um dia estranhamente frio para o ms de maio, Abby j   havia planejado tudo.
Depois de deixar Paige na pr-escola, iria at a loja de decorao e compraria papel de parede para o quarto da garotinha. Passaria o restante do dia ocupada com a tarefa de aplicar o novo acabamento ao cmodo, at que chegasse a hora de ir para a casa dos Castner.
Dedicaria o sbado para arrumar e limpar o armrio de arquivos do escritrio, j que conseguira transferir tudo para o computador. Havia muito a ser feito, depois que Devlin guardara cada nota de despesa e cada recibo, emitido ou recebido, desde o primeiro dia de funcionamento da empresa.
Na verdade, saber que estaria ocupada o dia inteiro era um alvio. Qualquer coisa que mantivesse seus pensamentos focados seria uma ddiva do destino. No queria pensar que estaria sozinha com seu marido naquela casa por todo o final de semana.
Alis, preferiria nem se lembrar do que havia acontecido da ltima vez em que haviam ficado sozinhos sob o mesmo teto. Mas aquele dia ficara gravado para sempre em sua memria. E a lembrana evocava pensamentos perigosos.
	Mame?  A voz de Paige a fez despertar do devaneio.  Posso levar Princesa para conhecer a casa do vov e da vov? Ela tambm nunca passou a noite com eles.
	No, querida. Acho que seus avs iro preferir que sua gata fique aqui.
Naquele momento, Devlin chegou  porta do quarto da garota.
	Precisam de ajuda?
	Papai, posso levar Princesa comigo para conhecer a casa da vov?
	Ficaremos muito sozinhos aqui, com vocs trs fora. Acho que precisaremos dela para nos fazer companhia, Paige. Pode nos fazer esse favor, deixando-a em casa?
Paige cruzou os bracinhos e soltou um suspiro, com ar desapontado mas compreensivo.
	Acho que sim.
	Por que no vai at l embaixo e escolhe os jogos que quer levar na bagagem?  sugeriu ele.
	Quem vai brincar comigo? Riley no gosta de meus joguinhos. Ele fala que so bobos.
	O vov vai querer jogar. Ele adora brincadeiras.
	At as minhas?
	Especialmente as suas  garantiu Devlin.
	Que maravilha!  exclamou Paige, correndo em direo  escada.
Abby fechou a mala da menina.
	Deixe que eu levo isso para o carro  ofereceu ele.
	Agora? Pensei que fssemos levar as crianas depois do jantar, hoje  noite.
	Esse era o plano original, mas minha me telefonou, pedindo para ir buscar Paige e os garotos na escola. Como pensei que no haveria objeo de sua parte, concordei de imediato. No h nenhum problema com isso, h?
	No, claro que no. Pensei em colocar o papel de parede novo hoje, e isso at me dar mais tempo para...
Abby parou de falar ao v-lo balanar a cabea negativamente, cruzando os braos.
	Sem crianas, sem trabalho. E estou falando de todo o final de semana  disse ele, aproximando-se e descruzando os braos.  Este ser o nosso primeiro momento de folga. Seremos s ns dois.
	Oh!
	Depois de irmos  sua consulta mensal com o mdico, claro. Pelo que me lembro, ela est marcada para hoje. Estou certo?
Abby levou as mos ao ventre de maneira automtica. Estava com quatro meses e meio de gravidez. Como era sua segunda gestao, ainda estava com a barriga bem pequena, mas seus seios estavam bem maiores do que o normal.
	Quer ir comigo ao mdico?
	Ns dois devemos estar l, no acha? Afinal, o beb tambm  meu filho. Alm disso, pensei em fazermos algumas coisas divertidas.
	Coisas divertidas...  murmurou ela.
Era difcil definir o que a abalara mais: saber que Devlin a acompanharia at o consultrio do mdico ou o fato de passar todo o final de semana divertindo-se com ele. Ambas as idias fizeram sua pulsao se acelerar. Mas o que a fez estremecer foi o indecifrvel brilho de mistrio que surgiu nos olhos dele naquele instante.
Antes que tivesse oportunidade de questionar, observou-o deixar o quarto, levando a mala de Paige consigo. Que tipo de diverso teria ele em mente?
Passaram a hora seguinte ocupados em arrumar as coisas dos garotos, e em colocar tudo no carro. Deixaram a menina na escola e avisaram  professora de que os avs iriam apanh-la naquela tarde. Faltavam poucos minutos para o horrio da consulta de Abby.
Quando se sentaram na sala de espera, foi impossvel no notar que Devlin era o nico homem presente. Mas aquilo no pareceu incomod-lo. Ficaram ao lado de uma jovem que parecia prestes a dar  luz a qualquer momento.
	 seu primeiro filho?  indagou Abby.
	Sim. E j est com quase duas semanas de atraso. No sei se o beb se acha muito satisfeito onde est, ou se  sua primeira.manifestao de teimosia  respondeu a mulher, que parecia ter pouco mais de vinte anos.
	Talvez seja um pouco de cada coisa. A moa tentou sorrir.
	O tempo comea a passar mais devagar depois de certo ponto. E o primeiro filho de vocs tambm?
Devlin se adiantou em responder, ao mesmo tempo em que enlaou o brao em torno dos ombros de Abby:
	 nosso quarto filho.
	Quatro crianas?  murmurou a jovem, olhando-os com admirao.  Como conseguem? Devem precisar muito do apoio um do outro.
Abby sorriu.
	Digamos que a crianada exige muita compreenso de nossa parte.
	Entendo. Imagino que devem se amar muito, para terem tantos filhos. Ronnie sempre diz que se nos amarmos de verdade, nossos filhos sero mais seguros e confiantes. Crianas precisam de pais que se amem e que saibam am-las.
	Sra. Armstrong?  a enfermeira chamou em voz alta.
A jovem ficou de p.
	Sou eu.
	Boa sorte  disse Abby.
	Obrigada. Acho que vou precisar  murmurou a moa, suspirando profundamente antes de acompanhar a enfermeira.
	Lembro-me de que estava muito nervosa quando esperava o nascimento de Paige. Havia tantas dvidas, tantas perguntas. Ficava imaginando como poderia ser uma boa me, sabendo to pouco sobre crianas. Tentei ler todos os livros que pude comprar. Mas os especialistas no chegaram nem perto das situaes que me surpreenderam. Tudo o que pude fazer foi am-la muito, e seguir meu instinto maternal.
	Hum...  murmurou Devlin, com um ar apreciativo, olhando-a de perto e mantendo o brao sobre seus ombros.
Ela soltou um riso suave.
	Desculpe-me. Acho que estava tagarelando.
	No. Esse no  um de seus hbitos. Alm do mais, o que disse  a pura verdade.  Devlin queria poder tom-la nos braos e beij-la.  Amor  tudo de que precisamos na vida. E a frmula da felicidade.
Uma sombra de esperana se manifestou no olhar de Abby, como se ela estivesse tentando transpor uma barreira emocional havia muito construda. Mas antes que ele pudesse decifrar qualquer mistrio ali oculto, Abby abaixou a cabea.
Mas foi o suficiente para que sua prpria esperana despertasse. Havia uma chance. Era mnima, mas existia.
 Sra. Hamilton?  chamou a enfermeira. Devlin a ajudou a ficar de p, e  acompanhou-a at a balana, na sala ao lado. Percebeu ento a hesitao dela em subir no aparelho.
 O que foi?
	Se importaria em sair por meio minuto?  indagou Abby.
	No se importe comigo. Estamos nisso juntos, lembra-se?
	Oh, ento suba voc na balana  desafiou Abby.
O sorriso provocante dele a fez estremecer.
 Quer que eu segure sua mo? Estreitando o olhar, mas evitando encar-lo, ela subiu na balana e no resmungou ao ouvir a enfermeira anunciar:
 Cinqenta e sete quilos e meio. Est se mantendo em forma, no? Quase no ganhou peso.
Ignorando a mo de Devlin, estendida a seu lado, Abby desceu da balana como se estivesse se livrando de um castigo. Ao passar ao lado do marido, ouviu-o sussurrar:
 Vou continuar a am-la, mesmo quando estiver com setenta e cinco quilos.
O termo "am-la" fez a pulsao de Abby se acelerar. Embora soubesse que ele no estava falando srio, aquilo a comoveu profundamente. Mas para ocultar a emoo que despertara dentro de si, olhou-o com desdm.
Ao entrar no consultrio, um mdico baixo, de compleio oriental, recebeu-os  porta.
	Bom dia, Sra. Hamilton.
	Dr. Lee, este  meu marido, Devlin.
O mdico estendeu a mo e cumprimentou-o com entusiasmo e simpatia.
	E um prazer t-lo aqui. Gostamos de encorajar os casais a virem juntos para as consultas, assim como para o curso pr-natal. Vocs j se inscreveram, no ?
	Ainda no  disse Abby.
Ela no pretendia forar o marido a uma situao como aquela, por isso no fizera a sugesto. Devlin arqueou as sobrancelhas com interesse.
	O curso j comeou?
O Dr. Lee consultou uma agenda.
	H uma turma com vagas, comeando na prxima semana. Podem se inscrever na recepo, antes de partir.
	Faremos isso  garantiu Devlin, com um sorriso.
	Muito bom  falou o mdico, guardando a agenda e pegando a prancheta.  Vamos l, Abby. Deite-se na maca para vermos como vo as coisas com voc e seu beb.
Para sorte de Abby, o exame foi superficial. Apenas sua barriga, que no estava to grande assim, ficou exposta. Devlin se sentou de lado, a distncia, deixando-a  vontade para responder s perguntas do mdico. Por fim, o Dr. Lee se virou para ele.
	Quer ouvir o corao do beb? Aproximando-se de Abby, Devlin colocou o estetoscpio que lhe foi oferecido e a fitou em silncio.
Foi impossvel no se comover ao perceber a forte emoo que o dominou naquele momento. Seus olhos refletiram uma ternura incrvel, que s poderiam partir de um bom corao.
Abby jamais o vira to maravilhado. Aquilo a fez sentir que suas barreiras estavam cedendo. No imaginara que ele iria querer acompanh-la consultrio adentro, e muito menos que o veria reagir daquela maneira.
Ao contrrio de John, que nem mesmo a levava s consultas, Devlin no hesitara em nenhum momento. No havia nenhum indcio de repulsa nem medo de ser pai. Uma das mos dele segurava a sua, enquanto a outra lhe tocava o ventre, de maneira quase reverente, enquanto ouvia o pulsar do corao da pequena vida que haviam concebido juntos.
Seus olhares se encontraram, e Abby sentiu vontade de guardar aquele momento para sempre em seu corao. Tudo o que pde fazer foi se erguer sobre os cotovelos e beij-lo, grata por aquele momento de infinita beleza, felicidade e unio.
Mais tarde, naquela noite, Abby estava tendo problemas para se concentrar na partida de Detetive, que estavam jogando com os Castner. Em parte, devido  fascinante simpatia do casal.
Assim que Cash pegou seus casacos, e Becky se aproximou para abra-los, a harmonia que reinava naquele lar se fez perceber. Era como uma espcie de vibrao natural, que envolvia todos em um clima de bom humor.
Depois de muitas rodadas, Devlin e o amigo arrumaram a mesa, enquanto Abby acompanhou a anfitri at a cozinha.
Era incrvel como Abby se sentia  vontade perto de Becky. Conversaram sobre as crianas e a nova amiga lhe revelou estar grvida tambm. Depois de comemorarem juntos com um brinde de suco de frutas, os dois casais finalmente jantaram.
Quando acharam que j era tarde, Abby e Devlin partiram. Ao aspirar o ar da noite, em frente  bela casa que agora era sua tambm, uma sensao de vazio a dominou por completo. L dentro, camas separadas os esperavam.
Por que se deixara dominar por tamanha depresso? Porque estava cansada demais para evitar. Exausta de tanto resistir, e de se controlar. Assim que entraram, ela foi direto para o quarto principal, tomou um banho e se deitou. O ltimo som que ouviu antes de adormecer foi o da cama de armar sendo preparada no andar de baixo.
Na manh seguinte, a primeira coisa que Abby sentiu foi uma lngua enorme e mida lambendo sua face.
	Saia da, Hulk! Agora  ordenou a voz firme de Devlin.
Quando sua viso entrou em foco, Abby identificou a expresso determinada e parcialmente frustrada do marido.
Esfregando os olhos, tentou identificar o que estava acontecendo. Mal lanou um segundo olhar na direo dele quando o grande co avanou sobre ela, dando-lhe outra lambida no rosto.
	Credo!  resmungou ela, defendendo-se.
	Agora chega!  esbravejou Devlin, colocando sobre a penteadeira a bandeja que trazia nas mos, antes de colocar o animal para fora.  V l para baixo.
Em poucos segundos, ele voltou a pegar a bandeja e colocou-a sobre o colo dela.
	No precisava preparar o desjejum para mim  disse Abby, sentindo-se quase nua, pois a ala da camisola escorregou de seu ombro, quase expondo
um de seus seios.
Antes que ela pudesse reagir, Devlin se aproximou e colocou a ala no lugar.
	Voc no  a nica por aqui que sabe fazer ovos mexidos.
J era bastante confuso ser acordada por lambidas de cachorro, mas ter Devlin sentado na mesma cama que ela, servindo-lhe o desjejum, era inusitado demais. Foi quase impossvel encontrar o que dizer.
	No vai se juntar a mim?
	Eu s tinha uma dessas bandejas de usar na cama, ento achei que no se importaria de dividi-la comigo  respondeu ele.
	Sirva-se  respondeu Abby, oferecendo um garfo a ele.
Devlin sentou-se mais perto, na beirada da cama, e comeou a comer tambm.
- No est gostando?
Ao ouvir aquela pergunta, ela percebeu que no estava conseguindo comer. No que a comida estivesse ruim, mas por causa da proximidade entre eles. O momento parecia ntimo demais.
	Oh, estou com pouca fome  improvisou Abby, levando as mos aos rins para massage-los.
	Suas costas esto doendo?
	S um pouco.
	Oh  murmurou Devlin, levantando-se e ajeitando um travesseiro s costas dela.  Melhorou?
	Sim, obrigada  falou ela, tentando arrumar algum assunto para quebrar o encanto que comeara a domin-la.  Seus amigos, os Castner, esto juntos h muito tempo?
	Comearam a namorar desde a quinta srie do primeiro grau.
	Desde a pr-adolescncia?
	Isso mesmo.
	Como conseguiram?
	Eles sempre tiveram altos e baixos, mas nunca deixaram de apoiar um ao outro. Nunca se separaram.
	Devem se amar muito.
	Com certeza. Isso eu posso garantir.
	Isso sim deve ser amor verdadeiro, como aqueles que so descritos em contos de fadas.
Abby percebeu que, sem querer, colocara um tom sonhador naquela frase. Como se aquele fosse seu maior sonho.
O olhar de Devlin capturou o seu no mesmo instante, deixando-a imobilizada. Aquele tom verde-esmeralda, pontilhado de dourado, parecia ser capaz de hipnotiz-la. Poderia ficar ali para sempre, admirando-o.
Ao mesmo tempo, havia uma espcie de desejo ou algo do gnero, que lhe parecia indecifrvel. Estaria ele arrependido por haver se casado por convenincia, em vez de esperar surgir algum com quem tivesse plena felicidade, e no apenas um contrato?
Havia um brilho de mistrio e de expectativa por trs daquele olhar. Mas parecia impossvel decifr-lo com certeza.
Depois de um longo silncio, Devlin voltou a falar, sem deixar de fit-la.
 O que quer fazer hoje?
 Se tiver algum trabalho para realizar, no se sinta obrigado a me entreter. Com as crianas passando o dia fora, posso aproveitar e ler um bom livro.
	Pensei em fazermos algo juntos.
	O que tem em mente?  indagou ela, s ento notando que ele estava massageando a nuca com certa freqncia.  Est com o corpo dolorido?
	Dormi de mau jeito.
	Por que no dorme aqui, j que a cama  maior e mais compatvel com seu tamanho?
	No.
	Mas  justo que faamos um rodzio. Voc tem o direito de dormir bem.
	No quero que durma naquela cama desconfortvel. O beb est crescendo, e logo comear a chutar. Ser melhor que tenha espao para se mover e se acomodar.
	Ento devemos dividir esta cama. H espao suficiente para ns dois  sugeriu Abby, com a voz um pouco trmula.
Estava ciente de que Devlin no tinha a menor inteno de dormir com ela. Isso ficara bastante evidente quando Paige fora para seu prprio quarto, e ele no voltara a dormir com ela. Era bvio que aquele aparente torcicolo era o preo que estava pagando pelas noites mal dormidas. Um movimento estranho deixou claro que ele ficara tenso.
	No creio que possa fazer isso.
Ela tentou no se abalar. Acreditava que aquilo no fora dito com a inteno de mago-la. Mas o aperto em seu peito no pareceu se suavizar por causa disso.
	Prometo que no vou me mexer demais.
De repente, ele se aproximou e colocou a bandeja de lado. Segurando-a pelos ombros, imobilizou-a com suavidade.
	No me incomodo que se mexa ou mesmo que cante enquanto dorme.
	Ento, qual  o problema?  sussurrou Abby, sem saber se queria ouvir a resposta.
	Sou um homem, Abby, no uma pedra.  A sinceridade no tom de voz de Devlin se equiparava ao brilho intenso em seu olhar.  No poderia dormir na mesma cama que voc sem que faamos amor.
CAPITULO IX
Foi como se algo houvesse sugado o ar dos pulmes de Abby. Fitando os olhos de Devlin, percebeu que ele tambm vinha contendo as emoes com rdeas curtas. As mos firmes a puxaram mais para perto do calor daquele corpo msculo.
	Ento  por isso que no voltou para o quarto?  indagou ela, quando conseguiu voltar a respirar.
	Sim.
	Por que no me disse?
Segurando as mos dela, Devlin levou-as lentamente aos lbios, beijando-as com suavidade. Ento roou os lbios em cada um de seus dedos, e por fim na regio sensvel do lado de dentro de um dos pulsos.
	Porque no  parte do nosso acordo. Mas a desejo tanto que estou desesperado. No consigo deixar de pensar em como foi maravilhoso quando fizemos amor.
A tenso que parecia emanar dele confirmava a verdade daquelas palavras.
Abby sentiu-se paralisada. As palavras "tambm quero voc" estavam na ponta da lngua, mas algo a fez manter-se calada.
De repente, Devlin se levantou da cama e ficou de p.
	Por que no nos vestimos e vamos passar o  dia em Madison?
A voz dele no soou to firme quando costumava ser. Abby reconheceu que deveria estar sendo mesmo difcil para seu marido lidar com aquela situao.
	No quer conversar sobre o que acabou de me dizer?
	No momento, acho que no h o que conversar. Enquanto se arruma, vou cuidar da loua do nosso desjejum. Esperarei l embaixo.
Ao v-lo deixar o quarto, uma sensao de vazio se apoderou de Abby outra vez, mas com muito mais intensidade do que ela experimentara antes. Saber que era desejada a deixou encantada... e assustada.
Como o queria tambm, sabia que precisaria usar de todo seu bom senso para no cham-lo de volta. Se Devlin no houvesse fechado a porta, talvez ela no conseguisse resistir.
Colocando as fantasias de lado, tratou de sair da cama, tomar banho e se arrumar. Vinte minutos depois, estava secando os cabelos, ciente de que era esperada no andar de baixo. Precisava manter a mente focada no que quer que estivesse fazendo. Seria perigoso divagar.
Teria um dia inteiro para estar ao lado dele, e pretendia deixar a natureza seguir seu curso. No queria que houvesse nem um momento sequer de desgaste entre eles. Os dois j estavam sofrendo demais com tudo aquilo. Ambos sabiam que queriam algo mais daquela relao, mas tambm tinham noo de que no estavam prontos para o passo seguinte.
Tudo o que precisavam era de algumas horas de descontrao e de diverso. Se  que aquilo seria possvel.
Devlin estava ao telefone quando Abby chegou  cozinha. O olhar de aprovao dele, ao v-la usando um macaco jeans apropriado para grvidas, foi reconfortante. Mas perceber que estava ansiosa por saber se o agradaria ou no a fez sentir-se tola.
Assim que desligou, ele pegou as chaves do carro e disse:
	Vamos?
	Para onde?
	Acho que devemos comprar a moblia do quarto do beb, incluindo o bero. Depois disso, veremos o que o dia nos reserva. Est bem assim?
No era bem o tipo de programa que seu corao estava pedindo, mas Abby reconheceu que era algo prtico e seguro a se fazer.
	Mostre o caminho, e eu o acompanharei.
O sorriso que recebeu dele no a ajudou em sua tentativa de se manter indiferente.
	Agora entendo o que Schnderg quis dizer com: "Amo uma mulher que segue seu homem para qual quer lugar".
"Se ao menos aquilo fosse verdade...", pensou Abby, ao passar pela porta que o marido mantinha aberta para ela.
Devlin esperava que um pouco da tenso se dissipasse ao longo da viagem at a cidade. Estava ciente de que no agentaria passar o dia todo dentro de casa, na companhia de Abby. No sem enlouquecer, ou acabar levando-a para a cama.
Precisavam de algum tempo juntos, para ficarem mais descontrados e se acostumarem um ao outro. Mas quanto mais prximos ficavam, mais ele a desejava, emocional e fisicamente.
Na terceira loja em que pararam, ela adorou um dormitrio infantil, com um lindo bero branco.
	Gostou?  indagou Devlin, ao ver o olhar encantado no rosto de Abby.
	E lindo  murmurou ela, passando a mo pela madeira do bero, e ento da cmoda.  Quando eu era uma garotinha, isso fazia parte da minha lista de sonhos.
	Lista de sonhos?
	Era uma lista que eu mantinha na memria, com tudo o que eu iria comprar quando crescesse e tivesse minha prpria casa.  Ela riu e balanou a cabea negativamente.   claro que a vida nem sempre atende aos nossos desejos. Quando engravidei de Paige, no tnhamos dinheiro algum, e tivemos de pedir um bero emprestado a um vizinho.
Determinado e ciente de que Abby merecia ter todos seus sonhos realizados, Devlin chamou a vendedora.
	Vocs tm um conjunto destes no estoque?
	Deixe-me verificar e voltarei em um instante  disse a moa, antes de se afastar e ir at um terminal de computador.
Assim que ficaram sozinhos, Abby se voltou para ele e falou em um tom baixo, para que ningum ouvisse:
	No sugeri que comprasse este dormitrio. O preo  absurdo!
Fitando aqueles belos olhos azuis, Devlin no hesitou.
	O beb precisa de um bero, e foi este o que mais a agradou, certo?
	Mas nosso filho s o usar por algum tempo. 0 que faremos com tudo isso depois?
A primeira coisa que lhe ocorreu foi que poderiam ter mais meia dzia de filhos, se isso a mantivesse ao lado dele. Mas no queria prend-la a uma armadilha. Pretendia t-la consigo por desejo prprio. Por amor. Amor?!
Tomar conscincia daquele sentimento o abalou por completo. Por um momento o piso pareceu ondular sob seus ps, levando-o a precisar se segurar na beirada do bero. Por que no percebera antes? Estava amando Abby!
Deveria ter reconhecido os sintomas. Na verdade, talvez soubesse daquilo o tempo todo e no quisesse admitir.
Quando e como acontecera, era difcil determinar. No ntimo, sentia que a amava desde sempre. Talvez o sentimento houvesse acontecido em uma outra vida, e tivesse despertado no momento em que ele a vira na festa de aniversrio de Gayle.
A idia do contrato deveria ter sido uma forma inconsciente de garantir que a teria a seu lado. No o fizera apenas pelas crianas, mas principalmente por ele mesmo. Somente naquele momento estava percebendo a tolice que cometera. Deveria t-la cortejado da maneira convencional, como Abby merecia. Depois de haver sido privada de uma infncia saudvel, ela se casara com um homem viciado em jogo, que arrasara suas chances de ter um futuro melhor.
Deveria ter sido sensvel o suficiente para perceber que ela merecia algo mais do que aquele contrato ridculo. Ao assinar o documento, conseguira apenas garantir que tudo ficasse mais difcil, inclusive faz-la feliz. Seria mesmo tarde demais para voltar atrs?
Mas como convenceria Abby sobre a sinceridade de seus sentimentos? Seria possvel que sua esposa pudesse esquecer o passado, rasgar o contrato, e am-lo completamente?
Foi ento que ele sentiu a mo dela segurando seu brao com firmeza.
	Devlin, est se sentindo mal?
	Desculpe-me. Acho que dormi pouco esta noite.  Tentando se recompor, ele pegou a carteira e retirou o talo de cheques.  Vamos fazer a encomenda. Depois que nosso filho crescer, poderemos guardar o bero e todo o dormitrio para nossos netos.
Abby no pareceu muito convencida da sugesto.
	Talvez eu deva ajud-lo a pagar.
	O dinheiro  nosso, Abby. Tudo o que possuo  seu tambm.
Teria ela entendido o que ele estava tentando dizer com aquelas palavras? Depois de tudo o que Abby passara na vida, era pouco provvel. Ela aprendera que teria de pagar um preo por tudo o que quisesse, pois sempre ouvira promessas e juras de amor, mas nunca as vira serem cumpridas. Depois de tantas decepes, como ela poderia acreditar em sua sinceridade?
Precisaria induzi-la a conhec-lo de verdade e a esquecer o passado. Teria de conquist-la, com pacincia e ternura, at que ela prpria quisesse rasgar aquele contrato e se tornar sua esposa, por amor.
Depois da compra do dormitrio, foram almoar em um restaurante chins. Ento seguiram para um evento chamado Parada de Casas, que era uma exposio imobiliria.
Abby descobriu que o evento anual era uma fonte de idias para Devlin, que no apenas expunha as casas novas que construra nas reas mais nobres, como tambm aprendia com as novidades, observando as melhorias implementadas pelos concorrentes.
Visitaram alguns dos imveis cujas fotos despertaram maior interesse em ambos, mas Devlin fez questo de no dizer se alguma delas havia sido feita pela empresa dele. A terceira delas foi a que mais a impressionou. O ambiente era maravilhoso e agradvel, e o acabamento impecvel. Ao sentir uma certa familiaridade com o local, perguntou:
	Esse  um de seus projetos, no?
	Talvez sim, talvez no  brincou ele, sem dar a menor pista.  No final do dia, ns descobriremos.
Por mais agradvel que a casa fosse, Devlin continuava sendo o centro de sua ateno. Abby no conseguia ignorar o fato de que ele confessara que a desejava.
A atrao entre eles se manifestara por conta prpria, alimentando seus instintos femininos cada vez que o ouvia falar, ou que sentia o toque dele em sua pele. Estava ciente de que deveria estar preocupada com o risco de baixar a guarda daquela maneira. Mas no parecia possvel reerguer as barreiras que estavam se rompendo, mesmo sabendo que no deveria confiar em ningum.
Naquele momento, chegaram ao banheiro do imvel. S ento sua ateno se voltou realmente para a casa que estavam visitando. O aposento a cativou por completo. Era suntuoso, com uma enorme banheira de hidromassagem, grande o bastante para 
acomodar duas pessoas. Situava-se bem ao centro do refinado ambiente, onde cada detalhe parecia haver sido cuidadosamente planejado.
Um murmrio escapou por entre seus lbios.
	Oh, aposto que tudo isso vai pertencer a algum milionrio rabe, dono de um harm.
	Voc gostou?  perguntou Devlin.
	Acho que poderia passar minha vida inteira naquela banheira.  meio extravagante, mas parece to confortvel... Pessoas normais no compram casas com banheiros assim, no  mesmo?
	Acho que voc se surpreenderia com a quantidade de pessoas "normais" que me pede algo assim em seus projetos  respondeu ele, diminuindo as luzes para uma penumbra sensual, antes de prosseguir, em um tom sensual:  O que acha agora?
Sentindo a nuca toda arrepiada, Abby tentou conter a imaginao, que estava criando imagens bastante ntimas e sensuais naquele cenrio. No era nada difcil imaginar o corpo msculo de Devlin, nu, encostado ao seu, dentro daquela banheira cheia de gua quente, espumante e perfumada. Quase podia senti-lo debruado sobre si, beijando-a nos lbios e acariciando-lhe os seios...
	Abby? Est tudo bem?
Ao ouvir a voz dele, assustou-se e voltou  realidade, mas cambaleou um instante. Na mesma hora, ele deu um passo adiante e se aproximou, franzindo o cenho. Levantando a mo, ela gesticulou para que o marido no chegasse mais perto.
	Estou tima. E verdade. Apenas me distra, pois jamais vi um banheiro assim antes  improvisou ela, sabendo que seria melhor sair dali, antes que fizesse algo constrangedor.  Mas no creio que precisemos de algo assim para o beb.
	No. Isso no  para o beb, nem para as crianas. E apenas para adultos...  Aproximando-se com mais um passo, Devlin usou um tom ainda mais sensual ao prosseguir:   para ns. Creio que seria uma boa idia adicionar um banheiro igual a esse  nossa casa. Poderamos us-lo ao final de um longo e exaustivo dia de trabalho, depois que as crianas estivessem na cama. No lhe parece relaxante?
Dividir uma banheira com Devlin parecia algo excitante, estimulante e sensual, mas com certeza no seria relaxante. A menos que ela pudesse desligar o desejo que sentia, como se fosse uma lmpada.
	Algo assim deve custar uma fortuna  argiu.
	Dinheiro no  problema.
	Quando teria tempo de construir algo assim? O vero  o perodo mais agitado na construo civil.
	Minha equipe de elite j est com os contratos fechados, mas haver uma paus.a no cronograma, aps o final da obra atual. Nada impede que faam um dormitrio extra e um banheiro a mais em nossa casa.
	Por que no fez um desses banheiros logo no incio, quando a construiu?
	No havia propsito nem motivao para isso. Mesmo sabendo que estavam um pouco separados, a presena de Devlin a envolveu de repente. "Ele a deseja", ecoou uma voz em sua mente.
Mas at quando? O que aconteceria quando Devlin se cansasse da diverso e a sensao de novidade houvesse acabado?
No poderiam passar a vida trancados em um banheiro. Apenas desejo fsico no era capaz de manter uma relao. O que aconteceria com o tempo?
	Ns iramos encolher de tanto ficar na gua  falou Abby, dizendo a primeira coisa que lhe veio  mente, tentando quebrar o encanto.
O olhar de Devlin voltou a capturar o seu uma vez mais, com uma intensidade avassaladora.
	Passarei loo nas suas costas se passar nas minhas.
"Oh, Deus!", pensou ela. "Assim vou acabar ficando louca!"
Desesperada, e sem saber como deixar de imaginar como seria despi-lo ali mesmo, fechou os olhos e usou a nica arma que lhe restava. Cobriu a boca com uma das mos e forou um bocejo. Por sorte, o gesto acabou se tornando natural, pois estava mesmo cansada de andar pela cidade.
No instante seguinte, a luz ambiente voltou  potncia total.
	Est precisando dormir um pouco, no?  indagou Devlin, com ar preocupado.  Quer voltar para casa?
	Sim  concordou Abby, cheia de alvio e de culpa, aceitando sem hesitar o brao que Devlin lhe ofereceu.
	Tenho os catlogos de construo de algumas das outras casas que no tivemos tempo de ver. Poderemos olh-los em casa, quando estiver mais disposta.
Como dizer a ele que o problema no era falta, mas excesso de disposio?
Abby dormiu durante a maior parte do trajeto de volta. Quando entraram em casa, Devlin a carregou at o quarto, colocando-a gentilmente na cama, antes de tirar-lhe os sapatos. Ela estava to exausta que nem mesmo conseguiu abrir os olhos. Tambm no agradeceu quando sentiu o cobertor ser colocado sobre seu corpo. Depois ouviu-o sair e fechar a porta.
Algumas horas depois, acordou e olhou para o relgio. Eram sete horas da noite. Como pudera dormir tanto? Estava caminhando para a porta quando Devlin apareceu.
	Dormiu bem?
	Como um anjo.
	Neste caso, bem-vinda ao mundo dos mortais. Est com fome?
	Hum, muita!
	Quer jantar fora ou comer em casa?
	Prefiro ficar aqui.
Pouco depois estavam fazendo um lanche, na cozinha. Pareciam adolescentes, divertindo-se na ausncia dos pais. Conversaram sobre as crianas, sobre os amigos e outras amenidades. Ento Devlin insistiu em lavar a loua, deixando-a apenas enxug-la.
	Voc deixou um pouco de comida neste prato  disse Abby, entregando-lhe a pea mal lavada.
	Tem certeza de que no quer guardar isso para um lanche noturno?  brincou ele.
	 muita considerao de sua parte, mas no, obrigada.
	Sou um homem com muita considerao por todos.
	E modesto tambm.
	Oh, voc notou?
Sorrindo com naturalidade, ela pensou em como era difcil resistir a um charme to incrvel. Mas estaria mesmo querendo resistir?
Depois de deixarem a cozinha arrumada, comearam a jogar com um dos brinquedos de Jason, uma espcie de tabuleiro de palavras cruzadas, mas com dados. Depois de se divertirem muito, Abby tomou conscincia de que, sob a mesa, suas pernas estavam entrelaadas s dele. Era impossvel se mover sem gerar uma onda de calor em seu prprio corpo.
Acabaram uma partida no exato momento em que o antigo relgio de parede soou onze toques.
	Est cansada de jogar?  indagou Devlin. Por que a voz dele parecia mais sensual do que antes?, pensou ela.
	Meus olhos j esto ardendo  confessou ela.
	Imagino.
Observando que o olhar dele repousou sobre seus lbios, Abby comeou a recolher as peas e coloc-las na caixa.
	Precisamos jogar isso mais vezes.
	Na prxima oportunidade, eu escolho o jogo. Ao falar aquilo, ele se levantou e foi guardar o brinquedo no quarto do filho.
Cansada de ficar tanto tempo sentada, evitando mover as pernas, Abby se levantou e foi at a janela, admirar o luar. Pouco depois, sentiu a presena de Devlin atrs de si.
	Eu costumava falar com a lua quando era garotinha, e a considerava minha nica companheira  disse ela, esfregando as mos nos braos, antes de se virar para encar-lo.
 Estava conversando com ela agora?
	No. J no sou mais uma menina solitria.
	Por que no?
	Porque tenho uma famlia,  tudo o que eu sempre quis.
	Tudo? Tem mesmo tudo o que quer? Tudo de que precisa?
Depois de um longo silncio, Abby compreendeu que ele havia confessado que a desejava, e que estava esperando por uma deciso de sua parte. No sabia se seria ousada o suficiente para fazer o que tinha vontade, mas no mentiria.
	No. No tenho tudo o que quero.
	Ento diga-me o que falta  pediu ele com gentileza, sem pression-la.
Naquele momento, um claro entrou pela janela, e um trovo se fez ouvir em seguida.
	Parece que vai chover.
	Voc acha?  indagou Devlin, com um toque de impacincia.
	Sim.
	Diga, Abby. Preciso ouvir as palavras.
	Esta manh, quando disse que no poderia dormir na mesma cama que eu, sem que fizssemos amor, estava sendo sincero?
	Estava. E o que sinto, e acho que sabe disso.
	Tambm acho que no posso compartilhar a cama com voc, e pelo mesmo motivo.
	Diga apenas o que quero ouvir, Abby.
Ela se aproximou dele, sem hesitar, fitando-o nos olhos.
	Quero voc, Devlin. Tentei ignorar o que sentia.
Eu me esforcei para no desej-lo. Sei que jurei cumprir minha parte do contrato, mas...
Ele a interrompeu, puxando-a para junto de si.
 Esquea aquele maldito contrato.
Os lbios dele cobriram os dela no mesmo instante em que a chuva comeava a cair do lado de fora, abenoando a terra to sedenta de gua quanto eles de amor.
CAPITULO X
Devlin precisava mais de Abby do que pensara ser possvel. O desejo que sentia era to intenso que ele no sabia se poderia esperar at chegar ao quarto.
Mas deixou sua prpria necessidade de lado e a carregou no colo, escada acima, colocando-a na cama pela segunda vez naquele dia. Ento se deitou ao lado dela, sem sentir-se obrigado a se conter e sair em silncio, como fizera horas antes.
A paixo que irradiava dos olhos de Abby quase o fez esquecer que deveria se controlar. Se havia algum que merecia ser amada de forma completa, essa pessoa era Abby, que aprendera a nunca pedir amor, j que a expectativa sempre a levara a se magoar.
Ciente de que no poderia apagar o passado, sabia tambm que deveria dar a ela um futuro melhor, certificando-se de que Abby jamais seria infeliz outra vez.
O simples fato de segur-la junto a si o fez sentir-se envolto em um turbilho de sentimentos e emoes. Ela tocou sua face com delicadeza.
Virando o rosto, Devlin a beijou na parte interna do pulso e ento no antebrao.
 Nunca imaginei...  murmurou Abby, interrompendo-se de repente.
	O qu?
O riso dela foi sensual, mas inseguro.
	No pensei que pudesse me sentir assim.
	Como?  indagou ele, roando os lbios no pescoo dela, traando uma linha imaginria at o colo daqueles seios perfeitos.
	Oh... excitada, trmula, assustada. Levando a mo dela at seu peito, Devlin no
hesitou em dizer:
	Pois saiba que no  a nica. Sinta isso.
Ao ver o olhar admirado de Abby, ele segurou-lhe as mos acima da cabea dela, sobre o travesseiro macio.
	Diga-me o que quer.
	No entendi  murmurou Abby, confusa.
	Onde quer que eu a toque? Como prefere? Mais devagar ou mais depressa?
A tenso em sua voz refletia a dificuldade que ele estava encontrando para se controlar, mas no sentiria prazer se os desejos dela no fossem satisfeitos por completo.
Na noite de npcias, deixara-se levar pela urgncia de seu prprio ritmo, e no se preocupara muito com o prazer de Abby. Mas no deixaria que o mesmo acontecesse naquela noite. Havia muito em jogo. O fato de decidirem se amar deveria ser um presente para ela. Algo que pudesse ser compreendido aos poucos. Teria de transmitir confiana, e deixar claro que jamais iria decepcion-la, como outras pessoas haviam feito no passado.
Precisava mostrar a Abby que ela finalmente encontrara um lar. No apenas na casa em que moravam, mas em seu corao. Porque era em seu peito que a teria junto de si para sempre.
As mos dela estavam trmulas quando comearam a desabotoar-lhe a camisa, assim como sua voz ao dizer:
	Quero que sinta prazer tambm, Devlin. Junto comigo.
	Seu prazer  o meu prazer, querida.
Sem lhe dar tempo para dizer mais nada, ela o puxou contra si e o beijou com paixo. Suas lnguas se tocaram em uma alucinante dana de carcias.
Pouco depois, estavam se despindo com lentido, saboreando cada momento de redescoberta. O esforo dele para se manter calmo estava sendo imenso, pois Abby tinha o incrvel poder de lev-lo ao xtase com um simples toque, minando-lhe o controle.
T-la nos braos era como tentar segurar um relmpago. Imprevisvel, eletrizante e quase fatal. Queria faz-la sentir-se especial e desejada. Pretendia mim-la e agrad-la. Sua esposa merecia ser amada, no mais amplo sentido da palavra.
Abby parecia sedenta de amor. Mesmo estando com quase cinco meses de gravidez, ainda conseguia se mover de forma magistral. Aquelas mos suaves pareciam capazes de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, provocando-o com carcias rpidas e precisas, deixando-o quase fora de si de tanta satisfao.
	Calma  murmurou Devlin.
Erguendo a cabea para encar-lo, ela parou de acarici-lo por um instante.
	Estou machucando voc?
	No, a menos que no considere importante o ato de respirar. Est me deixando sem flego.
Aquela confisso a fez olh-lo com malcia.
	E ?
	O qu?
	Respirar  importante?  indagou Abby, mordiscando a orelha dele, enquanto voltava a fazer carcias quase mgicas com as mos.
	Acho que no  mais  sussurrou Devlin, em um tom grave e sensual.
Ento ele mudou de posio e passou a dividir com ela o controle da situao. Suas boas intenes que esperassem. Se Abby pretendia coloc-lo de joelhos, subjugando-o de tanto lhe dar prazer, tudo o que lhe restava era devolver na mesma moeda...
Abby acordou na manh seguinte, para ir ao banheiro, no horrio habitual. Soltando-se com certa relutncia dos braos de Devlin, ficou admirada por perceber como seus corpos haviam se encaixado naquela posio agradvel, considerando que s haviam dormido juntos uma nica vez. Adormecera com naturalidade nos braos dele. Com confiana. A sensao de que estava fazendo o que era certo foi algo novo. Jamais sentira aquilo antes.
Ao sair da cama, caminhou em silncio at o banheiro. Minutos depois, ao sair, viu-o ainda dormindo, com o rosto virado para baixo, no travesseiro que ela acabara de desocupar. Aquela viso lhe causou um estranho prazer, algo que ela ainda no sabia ao certo como identificar, mas que lhe dominara o peito.
Mesmo estando quase inerte, com os belos olhos verdes ocultos pelas plpebras fechadas, ele ainda lhe causava uma sensao forte de... De qu?
Desejo. S poderia ser aquilo. No poderia se deixar levar pelos momentos em que estivera nos braos dele, pois no conseguia pensar com clareza em tal situao. Enquanto faziam amor, tivera a impresso de que eram as nicas pessoas no universo.
E, por fim, recebera dele algo que jamais esperara. O sentimento de ser querida e desejada. Perceber aquilo a confundiu e assustou.
Desejava voltar para a cama e ocupar seu lugar nos braos dele, antes que ele acordasse. Mas sabia que, se o fizesse, fariam amor outra vez e iria voltar a esquecer o motivo que a levara a estar ali. Tinha responsabilidades, e aquele seria um erro que ela no poderia se dar ao luxo de cometer.
Lanando mais um olhar sequioso na direo do marido adormecido, deu meia-volta e pegou o robe.
Abby no percebeu a presena de Devlin, at sentir os braos dele a envolverem por trs, e a tirarem da cadeira. Foi impossvel evitar a onda de satisfao que sentiu com aquele gesto simples.
	O que pensa que est fazendo fora da cama?  indagou ele, roando os lbios atrs da orelha dela.  No lhe dei permisso para sair, dei?
	E desde quando preciso de sua autorizao?
	Desde que aprendi a faz-la ronronar... Soltando-se dos braos dele, Abby tentou franzir o cenho, mas o sorriso em seus lbios no permitiu que fosse bem-sucedida.
	Est falando de mim como se eu fosse uma gata!
	Mas voc . Tenho os arranhes em meu corpo para provar isso.  Devlin se aproximou para abra-la outra vez, mas notou que havia um livro de anotaes sobre a mesa, com uma srie de nmeros ordenados.  O que  isso?
	E o livro onde estou anotando minhas horas de trabalho, para pagar o que lhe devo.
Uma frieza instantnea tomou o lugar da expresso de carinho que havia no olhar dele.
	Trabalhar  mais importante do que ficar comigo na cama?
	No foi isso o que eu disse.
	O que significa isso, ento?
	As crianas logo estaro voltando, e eu queria acabar logo o servio, para ter mais tempo para dedicar a elas. Quero lhes dar prioridade mxima.  Abby hesitou, assim que as palavras deixaram seus lbios, e tentou se explicar:  No era bem isso o que eu queria dizer.
	 mesmo? No acabou de afirmar que as crianas e este trabalho so mais importantes do que ficar comigo?
	Est distorcendo minhas palavras.
	Ento defina melhor sua atitude.  Devlin cruzou os braos.
	Quando nos casamos, concordamos que minha prioridade mxima seria exercer o papel de me. Tambm prometi pagar o emprstimo que me fez. Mas isso no significa que...
Ao v-la hesitar, ele tomou a palavra.
	O qu? Que no estourem sua lista de prioridades?  Sem esperar por uma resposta, virou-se e caminhou em direo  porta, mas se deteve antes de sair e completou:  O que  preciso para faz-la rasgar aquele contrato que assinamos?
Abby engoliu em seco.
	Por que eu faria isso?
	Por amor?
	Amor?  repetiu ela, sentindo-se insegura.  O que amor tem a ver com tudo isso?
Dois passos firmes o trouxeram para a frente dela outra vez.
	Talvez eu queira um casamento de verdade, onde o marido e a esposa no coloquem carreiras e dinheiro na relao.
	 isso o que quer?
	Eu te amo, Abby  falou Devlin, com seriedade e convico.  Sim,  isso o que quero.
Tomada por uma sbita onda de desespero, ela se sentiu sem foras. Temia dizer alguma tolice se abrisse a boca. Nada que experimentara em sua vida a preparara para aquele momento. Aprendera a no confiar em ningum, e muito menos em juras de amor. Aquilo fazia parte de seu cdigo de sobrevivncia.
As mos dele tomaram uma posio carinhosa em seus ombros, e daqueles lbios convidativos veio a pergunta fatal:
	Voc me ama?
De repente, ela se sentiu sem flego. Aprendera a acreditar que o amor era o "ouro dos tolos". Como a pirita, brilhava e reluzia, mas no valia nada.
Toda vez que desafiara aquele princpio, acabara magoada. Lembranas do passado comearam a brotar em sua mente. Todas as famlias com quem vivera haviam feito juras de que jamais a esqueceriam, mas nenhuma delas fora cumprida por mais de um ou dois meses. Vrias pessoas prometeram adot-la de forma definitiva, mas sempre tinham algo mais importante do que o declarado amor que sentiam por ela.
A ltima vez que arriscara seu corao fora quando John lhe dera o anel de noivado, prometendo uma vida de felicidade. Continuara a acreditar no amor, mesmo nas noites em que ele saa para jogar pquer, prometendo que aquela seria sua vez de ter sorte, e que compraria uma casa nova com o dinheiro que ganharia.
Embora soubesse que Devlin no se parecia com nenhum daqueles fantasmas do passado, no tinha certeza de que poderia am-lo. Muito menos de dar o que ele queria. As traies e as mentiras das quais fora vtima haviam assassinado algo em seu corao. Ele estava pedindo demais.
Mesmo sentindo uma vontade desesperada de se lanar aos braos dele, expulsando dvidas e temores, no poderia faz-lo. No poderia pensar apenas em si mesma. Os filhos de ambos estavam envolvidos na questo.
	E quanto s crianas?
	O que h com elas?
	Ora, esto contando conosco.
	Se nos amarmos, estaremos dando-lhes o melhor presente que poderamos oferecer.
	E se no for amor verdadeiro?  perguntou Abby, sabendo que iria exigir garantias que no poderiam ser dadas.  E se nos magoarmos mutuamente, e comearmos a nos odiar, devido a essas mgoas?
	Isso no vai acontecer.
	Voc no tem certeza disso!
	Sim, tenho.
	Eu bem que gostaria de acreditar nisso, mas no posso me dar a esse luxo. Nenhum de ns pode faz-lo. Nossos filhos precisam ter pais que se honrem e se respeitem mutuamente. No merecem estar  merc de algo incerto como o amor. Quatro crianas inocentes esto dependendo de ns. Duvido que estejam preparados para arcar com as conseqncias de nossos erros.
Assim como seu prprio corao no estava, pensou ela. Apaixonar-se por Devlin a deixaria mais vulnervel do que jamais estivera em toda sua vida. Se permitisse que aquilo acontecesse, no poderia suportar a idia de deixar de ser amada por ele. O que faria ento? Como encararia cada dia que tivesse pela frente, sabendo que no existia mais amor por parte dele? Seria impossvel dividir a mesma casa, a mesma mesa, a mesma cama...
Fora magoada demais no passado. Se entregasse seu corao, e fosse abandonada outra vez, no sabia se teria foras para se recompor outra vez.
 Quero faz-lo feliz, Devlin, mas amor no  algo em que eu possa confiar. Tudo o que tenho a lhe oferecer  o que determinamos no contrato.
Abby lhe deu as costas no mesmo instante em que terminou de falar, para no testemunhar o momento em que aqueles olhos verdes perderiam o brilho da paixo.
S depois de ouvir o som da porta se fechando, logo atrs de si, permitiu que as lgrimas escapassem de seus olhos.
CAPITULO XI
Quatro meses e meio depois, Abby j estava se considerando como uma espcie de "modelo de zepelim", andando pela cidade.
Estava saindo do carro,  porta de casa, ao voltar de mais uma de suas consultas com o ginecologista, quando foi atacada por um dos terrveis pernilongos da regio. Ignorando a dor que sentia nas costas, devido ao peso da volumosa barriga, estapeou o prprio brao, espantando o inseto, sem conseguir acert-lo.
Mais um daqueles minsculos vampiros lhe escapara. Havia se esquecido de como se tornara lenta na gravidez de Paige. Tudo o que fazia parecia demorar uma eternidade.
Como era final de agosto, perodo de frias de vero, no precisava levar Paige nem Riley s suas respectivas escolas. Jason, por sua vez, assumira todas as tarefas da cozinha, desde algum tempo. Por isso, restara-lhe apenas a tarefa de espantar os incansveis pernilongos de Wiscosin.
Encostada na lateral do carro, olhando para a casa logo em frente, precisou se concentrar e reunir foras para entrar. No sabia bem o motivo mas, em algum momento ao longo daqueles ltimos meses, passara a se sentir como uma intrusa naquele lugar. Todos pareciam estar bem acomodados, exceto ela.
Paige estava feliz. Brigava com Eiley, idolatrava Jason, e no perdia a menor oportunidade de envolver seu novo pai em suas brincadeiras. Tornara-se uma verdadeira Hamilton. Abby sentia-se feliz pela filha mas estava at com um pouquinho de inveja.
Massageando a regio dos rins, comeou a curta caminhada que separava a calada da varanda. Em seu ritmo lento de caminhar, teve tempo mais do que suficiente para pensar em sua situao com Devlin.
No haviam mais feito amor desde aquela noite, quatro meses e meio antes. A proximidade que experimentaram naquele final de semana j no passava de uma lembrana distante.
Tambm no discutiram nenhuma vez. Todas as conversas que tiveram desde ento foram polidas e distantes. Falavam sobre poltica, comentavam as atividades das crianas, e abordavam outras trivialidades.
Ele no media palavras para expressar sua gratido pela ajuda que recebia dela no escritrio, mesmo que se tratasse de um servio remunerado, mas no ficava l dentro quando a via chegando para trabalhar.
Tambm estava tomando muito cuidado para no toc-la. Estavam dividindo a grande cama do quarto principal, mas nenhum deles ousava rolar para o lado e invadir o espao do outro.
Um ano antes, uma relao como aquela pareceria mais do que ideal para Abby. Porm, no conseguia sentir-se satisfeita. Aquilo a fazia sentir-se s. Estavam cumprindo o contrato  risca, e sua tristeza aumentava a cada dia.
Mas no era apenas aquilo. Quando estavam fazendo o curso pr-natal no hospital, Devlin a ajudava nos exerccios de respirao, a apoiava e a massageava, como se ainda se importasse com ela. Aquilo a deixava ainda menos  vontade, pois dava a impresso de que eram um casal normal, como todos os outros da turma, que no hesitavam em demonstrar que se amavam.
Abby sabia que estava compartilhando uma espcie de purgatrio com ele. Havia uma parede entre eles. Ou melhor, um contrato. E no havia como se livrar dele.
Nos ltimos dias, Devlin parecera se tornar ainda mais distante. As crianas estavam comeando a passar mais tempo na companhia dele, deixando-a com uma sensao estranha de que estava sendo excluda da famlia. At mesmo Paige. No era algo deliberado, aquilo seu corao podia perceber, mas o detalhe servia para mago-la mais.
O pior era que seu marido parecia no estar se importando com aquela distncia entre eles. Na verdade, estava quase certa de que ele se arrependera de haver confessado seu amor. s vezes, sonhava que...
No. Sonhos e realidade eram foras opostas. Aquela era a dura realidade que ela aprendera ao longo da vida. No havia motivo para alimentar esperanas sobre algo que no poderia ser mudado.
Foi ento que Abby ouviu abrirem a porta da frente.
 Surpresa!  ecoou o coro, acompanhado de aplausos e do canto de um "parabns a voc", fazendo-a ficar paralisada.
Boquiaberta, ela observou a cena diante de si. Riley, Paige e Kelly Castner se amontoavam ao redor de um bolo de aniversrio, cheio de velinhas, que carregavam com todo cuidado na direo da mesinha de centro. Do lado oposto da sala, Jason estava tentando prender uma faixa de congratulao, que escapara da parede onde esta parecia haver sido presa com fita adesiva. Cash e Becky estavam correndo para ajud-lo. Apenas Devlin estava parado, mais para o lado, observando-a.
	Feliz aniversrio, mame  disse Paige, batendo as mozinhas.  Fizemos uma festa para voc, com um monto de presentes!
	Abra primeiro o meu  exigiu Riley, entregando-lhe um pacote.
Devlin se aproximou, carregando uma cadeira e colocando-a perto da mesinha. Ento a ajudou a se acomodar. Antes que ele se afastasse, ela o segurou pelo brao.
	Voc planejou tudo isso?
Abby ainda no estava aceitando a idia de que aquela festa era mesmo para ela, e muito menos compreendendo o motivo. Isso significava que ele ainda se importava? Seria possvel que ainda a amasse?
	As crianas ajudaram.
	Como soube que hoje era meu aniversrio? Foi a primeira vez, em semanas, que o viu sorrir.
	Hum... Espiei a data em sua carteira de motorista. Riley balanou um pacote em frente a ela.
	Abra!
Aceitando o presente, Abby no soube por onde comear a abri-lo, pois havia mais fita adesiva do que papel.
Becky se aproximou, oferecendo-lhe uma tesoura e perguntando:
	Quer dizer que no percebeu nada?
	Nem sequer imaginei que isso aconteceria  confessou Abby.
	Ento deve ter andado com a cabea no mundo da lua, pois as crianas vm falando sobre isso h semanas. Pensei que Devlin iria acabar esganando algum deles se estragassem a surpresa.
Enquanto desembrulhava o presente, Abby olhou de soslaio para o marido. Por que ele havia feito tudo aquilo depois de ouvi-la dizer, com todas as letras, que no poderia am-lo?
A dor em suas costas passou a se refletir no baixo ventre, no momento em que abriu o pacote e retirou de dentro seu primeiro presente. Olhou ento para o sorridente garotinho que pululava a seu lado.
	Como sabia que eu queria uma luva de beisebol?
	Acho que deduzi. Agora podemos brincar juntos, de arremessar e pegar.
	Adorei, querido  disse ela, curvando-se para beijar-lhe o rostinho sardento.
	E eu e Jason podemos cuidar do beb  disse Paige, segurando a mo do irmo mais velho.
	Ei, esse  um timo acordo. Devo coloc-lo por escrito e colher assinaturas, Abby?  indagou Cash.
	S no me peam para trocar fraldas  resmungou o jovem adolescente, fazendo uma careta, mas sem soltar a mo da irmzinha.
Por cima deles, o olhar de Abby encontrou o de Devlin. Ao notar o bom humor dele, uma calorosa sensao de satisfao dominou-lhe o peito.
Depois de desembrulhar a camiseta que Jason lhe dera, e de rir da figura de um pernilongo gigante, com a legenda "Pssaro Oficial de Wiscosin", recebeu o desenho que Paige fizera para ela, acompanhando uma miniatura em porcelana de um jogo para ch. Becky pintara uma linda paisagem em leo sobre tela, e Cash fizera a moldura.
O ltimo presente que abriu foi o de Devlin. A caixa luxuosa estava amarrada com um lao dourado, e era timbrada com a marca de uma das butiques mais refinadas do pas. Abby precisou se esforar para conter as lgrimas ao retirar o delicado vestido longo, em um raro tom de azul, segurando-o diante de si, para que todos o vissem.
	 lindo  disse, tentando manter o sorriso estvel, e descobrindo que no tinha fora para tanto, no momento em que fitou os olhos de Devlin.
Teve tempo de identificar um brilho de satisfao e de... algo mais.
Mas ento Riley se agarrou ao brao do pai, perguntando:
	Podemos comer agora?
Quando o marido foi se ocupar em servir a comida, Abby se descobriu com mais perguntas do que respostas. E uma estranha sensao de esperana.
Os homens insistiram em servir os pratos, e depois em arrumar tudo, dizendo que Becky deveria ficar fazendo companhia a Abby.
Depois de o bolo haver sido partido e servido, os Castner no demoraram muito para sair. Pouco depois, Paige pediu para ir dormir, e j estava quase cochilando quando a me a colocou na cama. Mesmo assim murmurou:
	Quero que o papai me d um beijo de boa-noite. Abby ficou de lado quando Devlin entrou no quarto e deu um beijo sonoro no rosto da menina.
	Boa noite, meu anjo.
	Eu amo voc, papai.
	Eu tambm amo voc, querida  disse ele, encostando o dedo na ponta do nariz dela.
As palavras soaram com tanta naturalidade que pareciam apenas a constatao de um fato. E talvez fosse mesmo.
Abby se virou e saiu do quarto. Devlin se juntou a ela pouco depois, na sala de estar.
	Acho que Paige j estava dormindo quando fechei a porta.
	Deve ter sido difcil faz-la guardar esse segredo de mim  falou ela, admirada.
	No imagina nem a metade da histria. Nos ltimos dias, tive de pedir a Jason que mantivesse os dois longe de voc o mximo de tempo possvel, para que no estragassem a surpresa.
	Teve muito trabalho para organizar tudo isso, no?
	Certas coisas valem a pena.
	E mesmo? Planejar a festa valeu o esforo? Devlin no respondeu de imediato.
	Venho tentando me ater aos termos que formalizamos no contrato, Abby. Fiz tudo o que pude para lhe dar o espao de que precisa. Mas no sei se poderei continuar com isso.
O que significava aquilo? Que ele a estava mandando embora?
	Est querendo o divrcio? E isso?
	No, no  nada disso  falou ele, aproximando-se e segurando as mos dela com todo carinho.  No quero que pague o dinheiro que acha que me deve. No me importo se est lavando minhas roupas nem remendando minhas meias. No me incomodaria se no soubesse cozinhar nem mesmo um ovo. No me casei com voc por nenhum desses motivos.
	Claro. Casou-se comigo por causa de Riley e de Jason.
	No.
	No?
	Foi por mim! No havia outro motivo. Quando inventei aquele maldito contrato, estava querendo t-la para mim.
	Mesmo?
Devlin puxou-a para si. Seu toque foi to suave que no a impediria de escapar, se quisesse. Depois de um instante, viu-o aproximando o rosto devagar e foi beijada com paixo. O roar provocante de lbios foi interrompido pouco depois, deixando-a sequiosa por mais.
Abrindo os olhos, Abby o encontrou a fit-la com uma certa expresso de urgncia. As mos dele a seguraram com mais firmeza, mas sem machuc-la.
	Sei que voc no acredita no amor, e que tem medo de confiar em mim. Mas isso no muda nada. Eu te amo, Abby, e isso nunca vai ter fim. Quero rasgar aquele contrato e viver um casamento de verdade. Um relacionamento real. Tudo o que peo  uma oportunidade de provar .que temos algo mais do que quatro crianas e um contrato para nos unir.
O ar entre eles pareceu se aquecer de repente.
Ela fora magoada muitas vezes ao longo da vida, mas passara tempo demais sozinha. Abby estava cansada da solido, de tentar ser forte, de ter medo... No entanto, toda a felicidade que imaginava poder conquistar envolvia a presena de Devlin.
Foi ento que percebeu que o amava. Mas seria o amor uma base forte o suficiente para que se arriscasse a rasgar o contrato?
Antes que pudesse tomar uma deciso, a dor em suas costas voltou, dessa vez com mais fora, e ela notou que no estava apenas se refletindo no baixo ventre. Era algo mais. Levou as mos ao ventre em um gesto automtico.
	Devlin?
O nome dele soou mais como um gemido abafado do que como um chamado.
No mesmo instante, ele a abraou para mant-la de p, quando ela cambaleou.
	O que foi? Qual  o problema? Encarando-o, Abby engoliu em seco, e disse:
	Vamos ter o beb.
CAPITULO XII
Devlin no hesitou em ergu-la nos braos e se encaminhar em direo  porta.
	Eu posso andar  disse Abby. Ignorando o protesto, ele a carregou at o carro
e acomodou-a no banco do passageiro.
	Estarei de volta em um momento.
Aps fechar a porta do carro, correu para dentro da casa. Um instante depois j estava de volta.
	E as crianas?  indagou Abby, observando-o sentar-se ao volante e dar partida no motor.
	Ficar tudo bem. Avisei Jason para onde estamos indo e telefonei para meus pais. Eles j esto a caminho daqui.
	Devlin, eu queria lhe dizer o que decidi.
	No se preocupe com isso agora. Voc  mais importante.
Daquela vez ela no iria se acovardar e fugir.
	Mas eu preciso...  Abby se interrompeu, encolhendo-se, devido a outra forte contrao.
Ele acelerou mais o veculo, ao mesmo tempo em que estendeu a mo direita para ela segurar.
	Nada de dar explicaes agora. Apenas segure-se em mim. Aperte com a fora que precisar.
No houve muita opo, a no ser fazer o que ele havia sugerido. Com o comeo da contrao seguinte, ela desistiu de falar, e apenas se sentiu grata pelo apoio que estava recebendo dele.
Quando chegaram ao hospital, os intervalos entre as contraes j estavam sendo de dois minutos. Tudo parecia nublado aos olhos de Abby. Apenas Devlin mantinha um aspecto real, e no se afastou dela nem por um minuto. Quando uma enfermeira tentou tir-lo da sala de preparao, no houve hesitao em seu tom de voz.
	Vou acompanh-la, moa. Diga-me o que preciso fazer para poder entrar na sala de parto.
Aquele tom irredutvel deixou claro que ningum o faria mudar de idia. Nem mesmo o mdico tentou dissuadi-lo de permanecer ali durante os exames preliminares.
Dali em diante, tudo aconteceu muito depressa. S o que Abby sabia, com certeza, era que no teria suportado o parto normal sem a presena dele a seu lado todo o tempo. Lembrando-a das aulas pr-natais, Devlin a manteve consciente, dizendo "respire" e "empurre", conforme o processo se desenrolava.
Paige nascera de cesariana, pois houvera uma complicao de ltima hora. O parto normal parecia mais doloroso, mas na verdade estava lhe dando um prazer sem igual por faz-la sentir o nascimento de seu beb.
Ento o to esperado som ecoou pela sala, acariciando seus ouvidos. O choro da criana antecedeu o anncio alegre do mdico:
	 uma garota. Uma verdadeira belezinha!
Abby se viu tomada pela emoo, e as lgrimas lhe escorreram pelas tmporas e pela face.
	Quer v-la?  perguntou Devlin.
Ao v-la piscar os olhos em um gesto de confirmao, ele colocou as mos com delicadeza sob sua nuca e seus ombros, ajudando-a a levantar a cabea.
Toda vermelhinha, traduzindo em choro o ultraje de haver sido retirada de seu santurio, a filha deles estava fazendo questo de deixar claro que no estava nada feliz por estar fora do tero.
O mdico soltou um riso satisfeito atravs da mscara de cirurgia, e ento falou:
	Tudo contado e examinado.  perfeita. E com certeza tem um belo par de pulmes.
Quando ela voltou a recostar a cabea, o olhar de Abby encontrou o de Devlin. Ao ver lgrimas no rosto dele, conseguiu sorrir, mesmo que de forma trmula, perguntando:
	 linda, no?
	Quase tanto quanto a me. -
A sinceridade daquelas palavras pareceu preencher o vazio no corao de Abby. A soma daquelas fortes emoes a fez chorar de alegria.
Abby acordou na cama do quarto de hospital, algumas horas depois. Ento ouviu a voz de Devlin, murmurando baixinho:
	Voc vai ser uma arrasadora de coraes, como sua me. Posso ver isso com clareza. Ser cabea-dura, independente e ter um corao bondoso. Precisarei espantar os rapazes com um taco de beisebol, ou tranc-la em uma torre.
Voltando-se na direo dele, Abby abriu mais os olhos e focalizou a viso. Seu marido estava perto da janela, conversando com a pequena criana em seus braos. Se j no houvesse descoberto que o amava, teria chegado quela concluso naquele instante. Com o rosto a apenas alguns centmetros do beb em seus braos, Devlin estava tendo a primeira "conversa de pai para filha".
Era impossvel saber se a pequenina estava dormindo ou hipnotizada pela voz dele. O que estava evidente era o sentimento sincero embutido em cada palavra que Devlin dizia. A fora infinita do amor que ele emanava estava preenchendo aquele quarto com uma vibrao quase palpvel.
Abby no duvidava de que Devlin seria capaz de chegar a extremos para defender qualquer um dos filhos. Era algum cuja palavra merecia confiana. Estava sempre pronto a ajudar aqueles a quem amava. Seria devotado  recm-nascida, como era com Jason, Riley e Paige. Era capaz de colocar as necessidades da famlia acima de suas prprias.
Ao assumir um compromisso, levava-o a srio. Alm de ser forte e compreensivo, era a pessoa mais estvel e confivel que jamais encontrara at ento.
Aquela criana nos braos dele poderia no saber, mas era afortunada por t-lo como pai.
Devlin levantou o rosto e sorriu para Abby. Percebera que ela havia acordado e que estava ouvindo suas palavras, pois reconhecera o modo como ela esticara os ps, como sempre fazia ao despertar, antes mesmo de abrir os olhos.
Aprendera muito sobre os hbitos dela, ao longo dos meses em que haviam compartilhado a mesma cama. Em vez de descansar, passava horas acordado, memorizando o som de sua respirao, os murmrios que ela fazia durante o sono e a imagem de sua silhueta sob o lenol. No havia muito que no soubesse sobre sua esposa e seus hbitos. Exceto sobre o que ela sentia a seu respeito.
Mas aprendera a ter pacincia. Estava disposto a esperar o tempo que fosse necessrio. Em algum momento, ao longo das horas que passaram juntos na sala de parto, trazendo aquele beb ao mundo, algumas verdades se aclararam em sua mente.
Fora tolo ao no querer aceitar que ela pagasse o dinheiro que Abby achava que lhe devia. No se tratava do dinheiro em si, mas de um compromisso que fora assumido antes do casamento. Para ela, aquilo representava honrar a si prpria, a unio das famlias e at ele. Deveria ter percebido aquilo antes.
Afastando-se da janela, caminhou em direo a Abby, ainda falando com o beb.
	Olhe quem est acordada, meu anjo. E a mame. Sentando-se na beirada da cama, ao lado dela,
colocou a criana em seus braos. Observou-a passar o dedo pelo rosto da criana, sorrindo, e ento perguntar:
	Ela se parece muito com Riley, no acha?
	Garanto que chorou tanto quanto ele ao nascer.
	Voc chegou a ir para casa?  indagou ela, fitando-o.
	Sim, mas ser Cash quem trar as crianas, mais tarde.
	Qual a reao deles quando contou sobre o beb haver nascido, e de ser uma menina?
	Jason fingiu estar indiferente. Riley perguntou se poderia ser o primeiro a segur-la. Paige queria saber se poderia levar a irmzinha para a escola, para mostrar para as amiguinhas.
Abby riu, enquanto lgrimas escorriam de seus olhos. Olhou para a criana por um momento, e ento voltou a encar-lo.
	Obrigada.
	Pelo qu?
	Nunca imaginei que sentiria tanta felicidade.
Antes que Devlin pudesse dizer algo, ela o surpreendeu, mudando o beb de brao e apoiando-se na cama para levantar o corpo e beij-lo no canto dos lbios.
Quando afastou o rosto do dele, o brilho daqueles olhos azuis denunciava tranqilidade e pureza de sentimentos.
	Eu te amo  declarou Abby, com sinceridade.  Desculpe-me por no haver tido coragem de admitir isso antes.
A emoo que dominou Devlin naquele momento foi intensa e definitiva. No precisava ouvir mais nada. Saber que ela o amava era suficiente. Curvando-se sobre ela, beijou-a com paixo, deixando que seus sentimentos flussem com naturalidade. Dando e recebendo. Fazendo promessas sinceras e silenciosas, que durariam para sempre.
	Oh, no...  A voz de Jason ecoou pelo ambiente, em um tom desgostoso.  Esses dois esto se beijando de novo.
Sentindo uma felicidade inabalvel, Devlin afastou o rosto e a deitou novamente na cama, sorrindo.
	Acho que nossas outras crianas chegaram, querida.
Riley foi o primeiro a segurar o beb, enquanto Paige se assegurou em sugerir mais de vinte nomes, ao descobrir que a recm-nascida ainda no tinha um. At mesmo Cash e Becky fizeram suas sugestes, mas o garoto mais velho se manteve afastado, encostado  janela.
	Jason?  chamou Abby.  No quer fazer
uma sugesto? Acho que s falta voc. Mas primeiro quero que veja sua nova irmzinha de perto.
Ele deu de ombros, mas se aproximou, com ar de pouco-caso.
A menina parecia saber por instinto como abal-lo, pois deu a impresso de sorrir, ao v-lo. O rapazinho riu por dois ou trs segundos, antes de voltar a assumir sua mscara de indiferena, olhando ao redor.
Devlin notou que a esposa estava se segurando para no rir, ento fez a pergunta por ela:
	E ento, filho? O que sugere?
	Bem, acho que ngela combina com ela.
	Gostei!  exclamou Paige.
	Eu tambm  concordou Riley.
Abby encarou o marido antes de perguntar:
	E ento? O que acha, meu amor?
	Para ser sincero, eu diria que a aceitao foi unnime  respondeu ele, sorrindo com satisfao e envolvendo todos em um grande abrao.
Dois meses depois, Devlin chegou do trabalho e estranhou encontrar a casa s escuras, exceto pela luz tnue que vinha da sala de estar.
Abby estava de costas para a entrada, tentando acender a lareira.
Franzindo o cenho, aproximou-se e disse:
	Deixe isso comigo, querida.
	Ol, amor  disse ela, ficando de lado e lhe entregando a caixa de fsforos.
Depois de acender o fogo, Devlin notou que a esposa estava usando o vestido que ele lhe dera na festa de aniversrio. Era incrvel como o corpo de Abby voltara a ficar perfeito em to pouco tempo. Uma onda de desejo comeou a arder dentro dele.
	Onde esto as crianas?
	ngela acabou de mamar e deve dormir pelas prximas duas horas. Jason vai dormir na casa de um amigo. Paige e Riley passaro a noite com os Castner.
	Quer dizer que temos a casa s para ns, por pelo menos duas horas?  indagou Devlin, olhando-a com interesse, enquanto tirava a jaqueta.  Nem sei o que fazer primeiro.
	Hum... Digamos que tenho algumas idias em mente.
	Estou comeando a gostar deste seu tom de voz. Em que est pensando?
Abaixando-se na direo de uma mesinha lateral, Abby pegou uma pasta de arquivo e a ofereceu a ele.
	Pensei que deveramos nos livrar de uma vez por todas deste contrato. Nossas duas cpias esto aqui dentro.
	Sem arrependimento?  questionou Devlin, pegando-as das mos dela.
	Nenhum.
	Perfeito.
Ele se curvou e alimentou as chamas com o calhamao de papel. Ao envolver os ombros dela em um abrao, enquanto contemplava a destruio daquele documento que tanto os fizera sofrer, escutou-a dizer:
	Tenho um presente para voc.
	Se o presente  o que est oculto por esse vestido, no vejo a hora de desembrulh-lo.
Abby riu em um tom misterioso e sensual, deixando-o ainda mais excitado.
	Digamos que este ser seu segundo presente da noite. O primeiro  este.
Ao falar, entregou um envelope branco para ele, parecendo conter algo parecido com o contrato que haviam acabado de queimar.
	O que  isso?  indagou Devlin, desconfiado.
	Abra e descobrir.
O sorriso misterioso e sedutor que ela esboou foi o que o levou a aceitar o desafio. A curiosidade era uma das caractersticas que Devlin no gostava de demonstrar, mas mesmo assim sua esposa aprendera a explor-la muito bem.
Ao abrir o envelope, encontrou os documentos referentes  abertura de cinco cadernetas de poupana.
	O que significa isso?  indagou ele, confuso.
	E o que est vendo. Abri uma no nome de cada criana. Trata-se do dinheiro da venda da casa de Ohio.
	Oh! Mas, e esta ltima? A quinta tm as iniciais A e D. Para quem ?
	Na verdade so as nossas iniciais. No sei se vamos ter mais filhos, mas para o caso de isso acontecer, no gostaria que ele, ou ela, se sentisse excludo. Quero que todas nossas crianas recebam igual tratamento. Voc aprova?
O fato de Abby pensar nos garotos da mesma forma com que se preocupava com Paige e com ngela o comoveu. Mas, conhecendo-a, sabia que no poderia esperar algo diferente.
Guardando os papis no envelope, colocou-o sobre a mesa e se voltou para ela, abrindo os braos de maneira convidativa.
	Achei sua atitude perfeita. Assim como voc. Caminhando na direo dele, Abby o enlaou em um abrao sensual, sem hesitar.
	Neste caso, meu amor,  hora de seu segundo presente. Alguma objeo?
O roar sensual dos lbios dela em seu queixo o instigou a levant-la nos braos e comear a caminhar em direo  escada.
	Nenhuma, querida. Mas devo avisar que no vou me contentar com uma nica chance de desfrutar do que ganhei.  Devlin a colocou na cama e comeou a despi-la, em um ritmo provocante e sensual.  Na verdade, estou muito disposto a desfrutar muito disso tudo.
	Oh... Amor... Muito?  murmurou Abby, com um brilho sedutor no olhar, enquanto o acariciava.
	Muito mais do que imagina. E por mais tempo do que voc pode querer...

PAMELA DALTON diz:
A principal reclamao de meus professores, quando freqentei a escola, era a de que eu era uma sonhadora. Costumava colocar um romance no meio de meu livro de histria, e me divertia enquanto fingia estudar. Minha me ia verificar se eu estava fazendo a lio de casa, e sempre me via com o grande livro de histria aberto  minha frente. Meu marido alega haver me ensinado tudo o que sei sobre romance. Ele  meu heri na vida real, em todos os sentidos. Meus filhos, Betsy e Peter, so muito tolerantes com a me, que escuta vozes em sua mente, e costuma falar sozinha todo o tempo.
Gosto de literatura, rock and roll e Mickey Mouse. J viajei para a Europa; estivemos na Alemanha Oriental logo depois da queda do muro de Berlim. De l, fomos at a Jamaica, passando por vrios pases ao longo do caminho."
